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Qualquer coisa sobre a ética do presidente Bush Será lícito tirar os macacos da selva? Estaremos profundamente errados quando comemos carne? Deveremos comer apenas ovos de galinhas felizes, i. é, criadas no campo? E a ética de Bush? Um dos mais polémicos filósofos contemporâneos explica-se. Richard Zimler A NOMEAÇÃO DE PETER SINGER como professor da Universidade de Princeton, em 1999, criou uma tempestade de protestos que seria descrita pelo New York Times como a maior comoção nos círculos académicos norte-americanos desde que Bertrand Russell foi impedido de leccionar no City College de Nova Iorque, no final dos anos 30. Porquê? Especialmente por duas razões (embora só a primeira seja normalmente citada); 1) As suas coerentes e cuidadosamente pensadas opiniões sobre temas que vão da eutanásia aos direitos dos animais tendem a ultrapassar os limites daquilo que é considerado tabu ou "obviamente" absurdo e acabam por enfurecer todos aqueles que preferem postulados mais tradicionais das alternativas éticas. 2) Ao contrário de muitos filósofos, Singer escreve com uma tal lucidez ― sem recorrer a jargões ― que as suas ideias e o seu pensamento são tão bem compreendidos como persuasivos. Muitos dos ensaios que deram a Peter Singer a reputação de filósofo contemporâneo mais influente da língua inglesa estão incluídos no seu último livro, Vida Ética, recentemente publicado no Brasil pela Ediouro Editora. Esta colectânea inclui alguns dos célebres ensaios sobre a libertação dos animais ― o tema que lhe trouxe a fama ― bem como escritos sobre eutanásia, altruísmo, aborto, liberdade de expressão, política e outros tópicos envolvendo considerações éticas e a tomada de decisões. Singer nasceu em Melbourne, na Austrália, mas vive em Nova Iorque. Vai falar sobre "Nós e os (Outros) Animais" no Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) no Porto, a 14 de Abril. Em Portugal, Singer está publicado na Via Óptima e na Temas e Debates. Os Meus Livros Em Writings on a Ethical Life/Vida Ética pede aos leitores que sigam o seu raciocínio filosófico em áreas éticas por vezes consideradas tabu ou mesmo perigosas. Seguindo o seu raciocínio, alguma vez chegou a uma opinião que tivesse considerado como impensável ou ultrajante? Peter Singer Claro que tenho hoje opiniões que nunca pensei vir a ter. Até aos 24 anos, por exemplo, nunca levei a sério a ideia de que poderia estar a fazer coisas erradas todos os dias ― de facto, duas ou três vezes por dia ― quando comia carne ou ovos de aviário. Agora julgo que estava errado, porque estava a cooperar com um sistema de produção eu paladar. O presidente português defendeu recentemente uma aldeia portuguesa que promove touradas nas quais o touro é morto à frente dos espectadores argumentando que era uma prática "tradicional" e, por isso mesmo, aceitável. O que pensa de uma "tradição" como defesa da causa do sofrimento? Como disse Shakespeare, algumas práticas são mais honradas quando se quebram. Embora a citação seja frequentemente compreendida por dizer simplesmente que as pessoas quebram mais vezes a tradição do que a observam, o contexto sugere que Shakespeare quis dizer que, às vezes, é mais honrado quebrar uma tradição do que segui-la. E este é certamente o caso com qualquer tradição que envolva crueldade. A escravatura foi por muitos séculos uma tradição ― e os maridos baterem nas mulheres, também. A sua posição sobre o aborto é complexa e não a quereria resumir aqui. Mas que espécie de lei ― ou de leis ― entende que deveríamos adoptar sobre o assunto? Até ao ponto em que o feto já é capaz de sentir a dor ― o que, conservadoramente, podemos estimar até 20 semanas depois da concepção ―, as mulheres deveriam poder abortar quando quisessem. Depois desse ponto, eu continuaria a permitir o aborto, mas entendo que o motivo teria de ser sério e o aborto deveria ser feito de maneira a não causar sofrimento ao feto, se o feto já for capaz de sentir a dor. Fundou o Great Ape Project para respeitar os direitos dos gorilas e dos chimpanzés "do mesmo modo que respeitamos os direitos dos seres humanos". Seria a favor de uma lei na Comunidade Europeia e noutros lugares que proibisse o rapto de animais dos seus ambientes naturais e selvagens? Devem ser acusados de assassínio um caçador ou um cientista que, em consciência, matam um destes animais? E o que devemos fazer com os homens e as mulheres que gostam de comer bushmeat, comida do mato ― a coxa de um gorila, por exemplo ― , num restaurante sofisticado em Paris? Tirar um grande macaco da selva já e ilegal, à luz do tratado CITES, que protege as espécies em perigo. Portanto é ilegal servir pedaços do corpo de um macaco em restaurantes de Paris ou de outro sítio qualquer. Infelizmente, em alguns países a lei não é aplicada adequadamente. Mas, do meu ponto de vista, devia ser ilegal raptar um grande macaco da selva, mesmo que a espécie não estivesse ameaçada de extinção, porque era mau fazer-se isso ao macaco como indivíduo. Sim, penso que matar um gorila é um crime, a não ser que seja um acto de eutanásia no interesse do gorila. Gostava de ver as pessoas que fazem essas coisas mandadas para a prisão por um longo período. Imagine que as técnicas de transplantação de coração foram aperfeiçoadas ao ponto de um coração de chimpanzé permitir a uma pessoa moribunda viver mais 10 anos com toda a normalidade. Acha que seria permissível? Em que circunstâncias pode a vida dos animais ser explorada para prolongar ― ou melhorar ― a vida dos seres humanos? Em vez de fazerem experiências com corações de chimpanzés, eu preferiria ver grandes esforços para obter mais órgãos humanos para transplantes. O ónus do consentimento devia ser ao contrário. Ou seja, todas as pessoas, no caso de morte cerebral, deviam consentir que os seus órgãos pudessem vir a ser usados, a não ser que tivessem indicado que não o autorizavam. Um registo online, facilmente disponível em lugares públicos, como bibliotecas, deveria estar sempre à disposição das pessoas que quisessem indicar o não consentimento do uso dos seus órgãos. Podíamos também fazer muita coisa para educar as pessoas para uma vida saudável, de modo que muito poucas viessem a precisar de transplantes de órgãos. Na teoria, depois de tudo isto ser feito, ainda poderia acontecer, numa circunstância especial, que a morte de um animal pudesse salvar a vida de um ser humano. Talvez haja alguma circunstância em que eu admitisse isso, mas dependeria sempre das hipóteses individuais dos dois seres envolvidos. Não dependeria apenas do facto de um ser humano e do outro não ser. Julga os actos como bons ou maus de acordo com as consequências. Se um ataque americano ao Iraque provocar milhares de mortos iraquianos e o sofrimento de muitos outros milhares, mas se acabar com uma ditadura brutal, é a favor desse ataque? Como se constrói uma equação para julgar se os resultados negativos desse ataque são contrabalançados pelos aspectos positivos? Como diz, equilibrar os aspectos negativos e os positivos. E quando não se tem a certeza, devemos avaliar as probabilidades. É por isso que, normalmente, é errado partir para a guerra. Temos sempre a certeza de que há gente que vai morrer, talvez muita gente. O que pode justificar isto? Só a certeza igual de que, se não houver guerra, ainda vai morrer mais gente, ou vai acontecer qualquer coisa de igualmente terrível. No caso americano com o Iraque, ainda não estou persuadido de que, se deixarem Saddam Hussein em paz, exista uma forte probabilidade de que ele venha a causar danos comparáveis aos que um ataque ao seu país irá produzir. Em que está a trabalhar neste momento, em termos de escrita e das suas actividades públicas? Estou a pensar em escrever qualquer coisa sobre a ética do presidente Bush. É um presidente que fala imenso sobre o bem e o mal, mas serão coerentes e defensáveis os seus pontos de vista éticos? Estou também a trabalhar no tema antigo da natureza da ética e até onde é possível para a razão desempenhar um papel na nossa tomada de decisões. No que diz respeito às actividades públicas, tenho vários assuntos que me interessam, como a justiça global e a oposição à indústria da alimentação nos Estados Unidos, uma luta que está muito atrasada em relação ao que se passa já na Europa.
in Os Meus Livros, n.º 8, Fevereiro de 2003 |
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