Como nasce um nome? É o nome que cria a realidade? Será real o que não foi ainda nomeado? Não será a palavra um exercício de ludicidade divina a nível do humano? Um jogo do Deus que (parafraseando Borges) brinca com os seus filhos, criando através do Logos? São um mistério, os nomes!
O nome 705 Azul nasceu, com efeito, no quadro da ludicidade criativa de uma equipa de investigação composta pelos Autores e pelas pessoas que na Editora mais directamente se empenharam e se comprometeram com este trabalho conjunto.
Bem poderíamos dizer que foi o nome que nos procurou e se nos impôs.
Aconteceu, pois, como o nascimento de uma vida, misterioso evento que, a posteriori, procuramos explicar e compreender.
Sabemos, contudo, que a genealogia pode ser, tal como a etimologia, apenas um rumor, um rumor de água viva, um desafio à busca, como um rumor de regato que desperta da monotonia sensorial. Diz, não explica; apela, não conduz; interpela, não afirma.
A busca é, com efeito, um jogo. Um jogo que interpela, que desafia, que desperta do torpor da mecanicidade mental. Uma sede de água numa garganta seca.
De que recôndito lugar surges, ó palavra, para iluminar a nossa busca?
E a palavra responde, silenciosamente, num amoroso convite à busca do sentido.
A palavra, lugar mágico de comunicação, bússola do mundo por achar, futuro que nunca alcançaremos, matéria e forma do indizível que se deixa dizer, inefável expressão do que somos sem saber.
Porque a criação nos supera, semiótica dos mundos a inventar.
Claro que poderíamos, nós próprios, brincar:
705 Azul, ah, sim, bem, vejamos: ora 705 Azul ... só poder ser uma metáfora: 705, expressão quantificada de lei, do rigor e da responsabilidade; Azul, apelo à sensação, empírica informação da experiência. Portanto, no contexto semântico do clássico jogo conceptual, temos a forma e a matéria, continente polissémico, mas também cristalização da actividade filosófica ela própria diversa, dinâmica, viagem iniciática ao mistério da vida.
Mas o Azul é mais: é cor do maravilhoso céu de Portugal, a nossa terra, é cor do mar onde Pessoa fez Deus reflectir o céu, Egeu do nosso imaginário, locus do acordar dos sábios, é cor de inúmeras galáxias, é cor matricial da água dos nossos sonhos.
Então, e o 705?
Bem, quem não brincou, pelo menos uma vez, à simbologia dos números? Quem já se deleitou com esse brinquedo deu-se certamente conta do jogo que a aritmologia seria capaz de fazer com a soma teosófica de 7+5, cujo resultado é 12, algarismos cuja soma, por sua vez, dá 3, que é a trindade divina, símbolo da unidade da diversidade, quiçá, símbolo da lei trina que governa o nosso mundo, apelo à busca da unidade do real, sonho que encanta o sono da Ciência.
E mais: no processo em que o nome se nos impôs, alguém se lembrou da Bíblia, Efésios, 3, 17-19 (p. 3, do manual) onde se lê
"... e assim que sejais arraigados e fundados no amor tereis condições para compreender com todos os santos o que é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade."
Estranho?
Talvez estranho porque facilmente nos esquecemos, ainda que o repitamos, que Filosofia é Amor. Investigação é amor, e ninguém conhece verdadeiramente o que não ama. Amor? Sim, mas amor que não seja sentimento, mas condição de conhecimento, porque condição de transformação.
Sem amor o conhecimento continuará a ser apenas análise e explicação.
E porque amor tem de ser atenção, consciência, e superação de si, só através do amor será possível a transformação do hermeneuta.
Só então o conhecimento deixará de estar enclausurado nos grilhões da mente, deixará de ser explicação para nascer como compreensão, e o que navega no mar da incerteza deixará de ser simples marinheiro para nascer como argonauta.
Porque amamos a Filosofia, amamos a Vida, e procuramos, na bruma do pensamento, animados pelo pressentimento do sentido, o caminho em que a Razão e o Esforço, guiados pelo Amor, nos conduzirão ao Templo do Saber.
P.S. Para os entendidos em arte: o 705 Azul também é um tipo de cobalto usado na pintura.
José Arêdes