O elogio da loucura


A Texto Editora enviou às escolas onde o manual 705 Azul para 10.° Ano de Filosofia foi adoptado uma carta, composta por um texto da sua Directora de Edições Escolares e por um texto de um dos autores, com o seguinte teor:




Fevereiro de 2004




Estimado(a) Professor(a),


A Texto Editora tem o prazer de comunicar que o manual 705 Azul, da disciplina de Filosofia, para o 10.° ano de escolaridade, foi galardoado com um Prémio de Mérito da Associação de Editores Escolares Europeus EEPG (European Educational Publishers Group), no âmbito do concurso de livros escolares efectuado por esta entidade.


A avaliação efectuada por uma Comissão de Qualidade, que integra o júri do concurso, teve por base os seguintes 8 critérios de análise: relevância, transparência, fiabilidade, atractividade, flexibilidade, participação, socialização e aplicação dos conhecimentos em novas circunstâncias.


Tendo sido ponderados todos os critérios de qualidade, o projecto 705 Azul mereceu uma avaliação global de 2,8 pontos, numa escala de 0 a 3.


Entre outras referências positivas, foram destacados como pontos fortes do manual a sua boa adequação às características dos alunos a que se destina, uma estrutura clara e facilitadora do processo de aprendizagem, a excelente disposição dos conteúdos, as ilustrações variadas e inspiradoras e a elevada flexibilidade para aplicação de diferentes estratégias de ensino.


Reconhecendo que a obtenção desta distinção só foi possível através dos contributos prestados por todos os professores que têm vindo a leccionar com os manuais da Texto Editora, continuaremos a trabalhar no sentido de melhorar continuamente os nossos projectos, incorporando novas práticas, metodologias e as sugestões que nos sejam apresentadas.


É com grande satisfação, mas também sentido da responsabilidade acrescida que se nos apresenta agora, que nos subscrevemos com elevada consideração,




                                                                              Carmo Correia

      bsp;                                      Directora de Edições Escolares





Justificação de um título: 705 Azul



Como nasce um nome? É o nome que cria a realidade? Será real o que não foi ainda nomeado? Não será a palavra um exercício de ludicidade divina a nível do humano? Um jogo do Deus que (parafraseando Borges) brinca com os seus filhos, criando através do Logos? São um mistério, os nomes!


O nome 705 Azul nasceu, com efeito, no quadro da ludicidade criativa de uma equipa de investigação composta pelos Autores e pelas pessoas que na Editora mais directamente se empenharam e se comprometeram com este trabalho conjunto.


Bem poderíamos dizer que foi o nome que nos procurou e se nos impôs.

Aconteceu, pois, como o nascimento de uma vida, misterioso evento que, a posteriori, procuramos explicar e compreender.


Sabemos, contudo, que a genealogia pode ser, tal como a etimologia, apenas um rumor, um rumor de água viva, um desafio à busca, como um rumor de regato que desperta da monotonia sensorial. Diz, não explica; apela, não conduz; interpela, não afirma.


A busca é, com efeito, um jogo. Um jogo que interpela, que desafia, que desperta do torpor da mecanicidade mental. Uma sede de água numa garganta seca.


De que recôndito lugar surges, ó palavra, para iluminar a nossa busca?


E a palavra responde, silenciosamente, num amoroso convite à busca do sentido.

A palavra, lugar mágico de comunicação, bússola do mundo por achar, futuro que nunca alcançaremos, matéria e forma do indizível que se deixa dizer, inefável expressão do que somos sem saber.

Porque a criação nos supera, semiótica dos mundos a inventar.


Claro que poderíamos, nós próprios, brincar:

705 Azul, ah, sim, bem, vejamos: ora 705 Azul ... só poder ser uma metáfora: 705, expressão quantificada de lei, do rigor e da responsabilidade; Azul, apelo à sensação, empírica informação da experiência. Portanto, no contexto semântico do clássico jogo conceptual, temos a forma e a matéria, continente polissémico, mas também cristalização da actividade filosófica ela própria diversa, dinâmica, viagem iniciática ao mistério da vida.


Mas o Azul é mais: é cor do maravilhoso céu de Portugal, a nossa terra, é cor do mar onde Pessoa fez Deus reflectir o céu, Egeu do nosso imaginário, locus do acordar dos sábios, é cor de inúmeras galáxias, é cor matricial da água dos nossos sonhos.


Então, e o 705?

Bem, quem não brincou, pelo menos uma vez, à simbologia dos números? Quem já se deleitou com esse brinquedo deu-se certamente conta do jogo que a aritmologia seria capaz de fazer com a soma teosófica de 7+5, cujo resultado é 12, algarismos cuja soma, por sua vez, dá 3, que é a trindade divina, símbolo da unidade da diversidade, quiçá, símbolo da lei trina que governa o nosso mundo, apelo à busca da unidade do real, sonho que encanta o sono da Ciência.


E mais: no processo em que o nome se nos impôs, alguém se lembrou da Bíblia, Efésios, 3, 17-19 (p. 3, do manual) onde se lê


"... e assim que sejais arraigados e fundados no amor tereis condições para compreender com todos os santos o que é a largura e o comprimento e a altura e a profundidade."


Estranho?

Talvez estranho porque facilmente nos esquecemos, ainda que o repitamos, que Filosofia é Amor. Investigação é amor, e ninguém conhece verdadeiramente o que não ama. Amor? Sim, mas amor que não seja sentimento, mas condição de conhecimento, porque condição de transformação.

Sem amor o conhecimento continuará a ser apenas análise e explicação.

E porque amor tem de ser atenção, consciência, e superação de si, só através do amor será possível a transformação do hermeneuta.


Só então o conhecimento deixará de estar enclausurado nos grilhões da mente, deixará de ser explicação para nascer como compreensão, e o que navega no mar da incerteza deixará de ser simples marinheiro para nascer como argonauta.


Porque amamos a Filosofia, amamos a Vida, e procuramos, na bruma do pensamento, animados pelo pressentimento do sentido, o caminho em que a Razão e o Esforço, guiados pelo Amor, nos conduzirão ao Templo do Saber.



P.S. Para os entendidos em arte: o 705 Azul também é um tipo de cobalto usado na pintura.


José Arêdes




CONTEXTO


Para que a importância deste prémio possa ser devidamente apreciada é útil conhecer as informações que sobre ele se encontram na página da internet da entidade promotora, o European Educational Publishers Group:

  • O European Educational Publishers Group (EEPG) é uma associação de editoras escolares formada em 1991, que conta actualmente com 22 membros.

  • Só pode integrar o EEPG uma editora por país. A Texto Editora é o membro português e tem assento no Management Board, onde é representada pela Sr.ª Carmo Correia.

  • O EEGP criou o «EEPG Best Schoolbooks Awards» para premiar livros escolares.

  • Participam no concurso apenas as editoras associadas, que submetem um livro à apreciação do EEPG.

  • Cada membro manda uma cópia do livro escolar em apreço para todos os outros membros do EEPG (juntamente com uma carta em que explicam por que razão aquele é o seu melhor livro) e para o European Quality Team (uma equipa que fez «Quality Guide for the Design and Evaluation of Educational Materials» para a Comissão Europeia).

  • A avaliação das obras submetidas a concurso é feita pelos membros do EEPG e pelos membros do European Quality Team.

  • Os votos dos membros do EEPG participantes pesam 75% e os votos dos membros do European Quality Team pesam 25% para o cálculo dos resultados finais.

  • Prémios Atribuídos em 2003: 1 Certificado de Ouro, 1 Certificado de Prata, 1 Certificado de Bronze e 4 Prémios de Mérito.

  • Em 2003, cerca de 1/3 dos membros (7 em 22) obteve um qualquer tipo de prémio.

  • Um dos prémios de mérito foi atribuído ao manual 705 Azul da Texto Editora.

  • A página da Internet do EEPG é parca e confusa na informação sobre o «EEPG Best Schoolbooks Awards»: afirma que a edição de 2003 é a quarta edição do prémio, mas só há informação sobre 2 edições; não há qualquer referência à pontuação de 2,8 em 3, referida pela Texto Editora na carta enviada às escolas.

 

Álvaro Nunes e Júlio Sameiro, 2004

 

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