Mais detecção do disparate


Como traçar os limites entre
a ciência e a pseudociência


Quando exploramos os limites da ciência, enfrentamos com frequência o "problema de fronteira" de saber onde traçar a linha que separa a ciência da pseudociência. A fronteira é a linha de demarcação entre geografias do conhecimento, o limite que define regiões de alegações. Contudo, os conjuntos de conhecimentos são entidades mais imprecisas do que as regiões e os seus limites são vagos. Nem sempre é claro onde traçar a linha. No último mês sugeri que façamos cinco questões a uma alegação para determinar se é legítima ou um disparate. Continuando com as questões para detectar o disparate, vemos que ao proceder assim estamos ao mesmo tempo a ajudar a resolver o problema de fronteira de onde colocar uma alegação.


6. A maior parte das provas aponta para a conclusão daquele que faz a alegação ou para outra?

A teoria da evolução, por exemplo, é provada por uma convergência de provas com origem em diversas linhas independentes de investigação. Nenhum fóssil, nenhuma prova biológica ou paleontológica traz escrito "evolução"; em vez disso dezenas de milhar de pequenas provas juntam-se para formar a história da evolução da vida. Os criacionistas ignoram convenientemente esta confluência, concentrando-se antes em anomalias vulgares ou em fenómenos da história da vida que ainda não foram explicados.


7. Quem faz a alegação emprega as regras de raciocínio e os instrumentos de investigação aceites, ou estes foram abandonados a favor de outros que levam à conclusão desejada?

Pode-se distinguir com clareza entre os cientistas do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence) e os OVNIlogistas. Os cientistas do SETI partem da hipótese negativa de que não existem extra-terrestres inteligentes e de que têm de apresentar provas concretas antes de fazerem a alegação extraordinária de que não estamos sozinhos no universo. Os OVNIlogistas partem das hipóteses positivas de que existem extra-terrestres inteligentes e que nos visitaram, e em seguida empregam técnicas de investigação questionáveis para apoiar a sua crença, como a regressão hipnótica (revelações de experiências abdutivas), raciocínios anedóticos (inúmeras histórias de visões de OVNIs), pensamento conspirativo (encobrimento pelo governo de encontros com extra-terrestres), provas visuais de baixa qualidade (fotografias desfocadas e vídeos cheios de grão), e pensamentos anomalísticos (anomalias atmosféricas e testemunhas com percepções visuais erradas).


8. Quem faz a alegação dá uma explicação para o fenómeno observado ou nega apenas a explicação existente?

Esta é uma estratégia clássica de debate ― criticar o oponente e nunca afirmar aquilo em que se acredita para evitar ser criticado. É praticamente impossível conseguir que os criacionistas dêem uma explicação para a vida (para além de "Deus criou-a"). Os criacionistas que acreditam num Desígnio Inteligente não fizeram melhor, procurando nos defeitos das explicações científicas problemas difíceis e oferecendo no seu lugar "O DI criou-a." Este estratagema não é aceitável em ciência.


9. Se quem faz a alegação apresenta uma explicação nova, esta explicação dá conta de tantos fenómenos quanto a explicação antiga?

Muitos dos que duvidam da relação entre a SIDA e o HIV argumentam que é o modo de vida que causa a SIDA. Contudo, a sua teoria alternativa não explica nem de perto nem de longe tantos dados quanto a teoria do HIV. Para construir a sua argumentação ignoram as diversas provas que suportam a teoria segundo a qual o HIV é a causa da SIDA, ao mesmo tempo que ignoram a significativa correlação entre o surgimento da SIDA nos hemofílicos pouco depois do HIV ter sido inadvertidamente introduzido no fornecimento de sangue.


10. São as crenças e as inclinações de quem faz a alegação que levam às conclusões, ou vice-versa?

Todos os cientistas têm crenças ideológicas, políticas e sociais que podem influenciar as suas interpretações dos dados, mas como é que essas inclinações e crenças afectam na prática a sua investigação? Normalmente, durante a revisão pelos pares, estas inclinações e crenças são eliminadas, ou o artigo ou livro é rejeitado.

É óbvio que não há métodos totalmente eficazes de detecção do disparate ou de traçar a fronteira entre a ciência e a pseudociência. Há, no entanto, uma solução: a ciência lida com fracções imprecisas de certezas e incertezas, em que se pode atribuir à evolução e à cosmologia do big bang 90% de probabilidades de serem verdadeiras e ao criacionismo e aos OVNIS 10% de probabilidades. No meio estão alegações de fronteira: podemos atribuir à teoria das supercordas 70% e à cryonics 20%. De qualquer modo, mantemo-nos de espírito aberto e flexíveis, prontos a reconsiderar as nossas avaliações à medida que surjam novas provas. Sem dúvida que é isto que torna a ciência tão efémera e frustrante para muita gente e, ao mesmo tempo, o que faz da ciência o produto mais glorioso da mente humana.


Tradução de Álvaro Nunes

 

Michael Shermer, 2001

 

© Filosofia e Educação, 2001-2014. Todos os direitos reservados.

filedu@filedu.com