A detecção do disparate


Como traçar os limites entre
a ciência e a pseudociência


Quando dou conferências sobre ciência e pseudociência em colégios e universidades, perguntam-me inevitavelmente, depois de ter questionado as crenças vulgares de muitos estudantes, "Porque devemos acreditar em si?" A minha resposta é: "Não devem."

Explico-lhes então que temos de verificar as coisas por nós próprios e, se isso não for possível, pelo menos fazer algumas questões básicas dirigidas à validade de qualquer alegação. É a isto que chamo a detecção do disparate, em atenção a Carl Sagan, que forjou a frase "o kit de detecção do disparate". Para detectar o disparate ― isto é, para ajudar a discriminar entre ciência e pseudociência ― sugiro que façamos 10 questões quando encontramos uma alegação.


1. Até que ponto é fidedigna a fonte da alegação?

É frequente os pseudocientistas parecerem fidedignos, mas quando examinados de perto, os factos e números que citam estão distorcidos, fora de contexto e ocasionalmente são mesmo fabricados. É óbvio que todos fazemos alguns erros. Como o historiador da ciência Daniel Kevles mostrou muito bem no seu livro The Baltimore Affair, pode ser difícil detector um sinal fraudulento no meio do ruído de fundo do lixo que faz parte do processo científico normal. A questão é se os dados e as interpretações mostram sinais de distorção intencional. Quando um comité independente estabelecido para investigar uma fraude potencial analisou as notas de investigação do cientista laureado com o Nobel, David Baltimore, elas revelaram um número surpreendente de erros. Baltimore foi ilibado porque os seus erros de laboratório eram fortuitos e sem intenção.


2. Esta fonte faz frequentemente alegações análogas?

Os pseudocientistas têm o hábito de ir bastante para além dos factos. Geólogos diluvianos (criacionistas que acreditam que o dilúvio de Noé pode explicar muitas das formações geológicas da Terra) fazem consistentemente alegações chocantes que não têm qualquer relação com a Geologia. É óbvio que vários grandes pensadores vão frequentemente para além dos dados nas suas especulações criativas. Thomas Gold da Universidade de Cornell é famoso pelas suas ideias radicais, mas esteve tantas vezes certo que os outros cientistas ouvem o que tem a dizer. Gold propõe, por exemplo, que o petróleo não é um combustível fóssil mas o produto secundário de uma profunda e quente biosfera (microorganismos que vivem a profundidades imprevistas dentro da crusta). Praticamente nenhum cientista da Terra com quem falei pensa que Gold está certo, contudo não o consideram um excêntrico. Tem cuidado com um padrão de pensamento que consistentemente ignore ou distorça os dados.


3. As alegações foram verificadas por outra fonte?

É costume os pseudocientistas fazerem afirmações que não foram verificadas ou foram verificadas apenas por fontes dentro do seu próprio círculo de crenças. Temos de perguntar quem está a examinar as alegações, e mesmo quem está a examinar os examinadores. O maior problema do fiasco da fusão fria, por exemplo, não foi que Stanley Pons e Martin Fleischman estavam errados. Foi que anunciaram a sua espectacular descoberta numa conferência de imprensa antes de outros laboratórios a terem verificado. E pior, quando não se conseguiu reproduzir a fusão fria, eles mantiveram-se fiéis à sua alegação. A verificação exterior é crucial para a boa ciência.


4. Como é que esta alegação se ajusta ao que sabemos sobre o funcionamento do mundo?

Um alegação extraordinária deve ser colocada num contexto mais lato para ver como se ajusta. Quando as pessoas alegam que as pirâmides egípcias e a Esfinge foram construídas há mais de 10.000 anos por uma raça avançada desconhecida, não apresentam qualquer contexto para essa civilização antiga. Onde estão os restos dos artefactos dessa gente? Onde estão as suas obras de arte, as suas armas, as suas roupas, as suas ferramentas, o seu lixo? A arqueologia não funciona desta maneira.


5. Alguém tentou refutar a alegação, ou só foram procurados indícios que a suportem?

Esta é a propensão para a confirmação, ou a tendência para procurar indícios confirmativos e para rejeitar ou ignorar indícios contrários. A propensão para a confirmação é poderosa, penetrante e quase impossível de evitar por todos nós. É por isso que os métodos da ciência que põem ênfase no exame e no reexame, na verificação e na reprodução, e especialmente tentam falsificar uma alegação, são tão exigentes.


No próximo mês na Parte II irei aumentar o processo de detecção do disparate com mais cinco questões que revelam como a ciência trabalha para detectar os seus próprios disparates.


Tradução de Álvaro Nunes

 

Michael Shermer, 2001

 

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