As conseqüências absurdas do relativismo pós-moderno


Algumas tendências pós-modernas presentes na cultura contemporânea, principalmente em alguns setores das humanidades e das ciências sociais, questionam a possibilidade de uma verdade objetiva e independente de pontos de vista. Muitos antropólogos, por exemplo, afirmam que não há qualquer racionalidade que tenha validade universal, mas apenas diferentes racionalidades de diferentes culturas. Para esse discurso, a que podemos chamar de relativista, a verdade é múltipla e depende do ponto de vista do sujeito ou do contexto em que é formulada. Assim, todas as afirmações, sejam científicas, filosóficas, religiosas, etc., seriam diferentes "narrativas", que deveriam ser compreendidas em seus respectivos contextos históricos, culturais e lingüísticos, pois apenas revelariam os preconceitos culturais de diferentes narradores.

Confesso que ainda me esforço para entender o que se passa na cabeça de um relativista quando este afirma ser a verdade uma questão de diferentes práticas culturais. Os critérios de verdade, dizem-nos, são relativos às diferentes práticas e culturas e não há nenhum juiz ou padrão de racionalidade imparcial e superior capaz de avaliar essas diferentes verdades. O engraçado é que essas afirmações não têm um pingo de lógica, pois afirmam que não há uma verdade não relativa quando essa mesma afirmação pretende ser encarada como não relativa, mas vamos deixar isso de lado por enquanto e nos voltarmos para as conseqüências absurdas de tal modo de encarar as coisas.

Podemos examinar várias possibilidades que evidenciariam as conseqüências absurdas do relativismo pós-moderno. Por exemplo: uma criança é violentada e assassinada, e temos dois candidatos para resolver o crime e punir o culpado. De um lado temos uma tribo e todos seus velhos preceitos religiosos passados de geração para geração, do outro lado temos um tribunal do homem ocidental com todos seus conceitos de prova e investigação. O pajé da tribo pretende descobrir o culpado por meio de um ritual, pois as entranhas de um pássaro, diz o pajé, não mentem nunca. Ao passo que o homem ocidental, por meio de um detetive que utiliza outros métodos para descobrir o autor do crime, afirma saber quem é o criminoso devido a uma série de indícios, sendo o principal deles o exame de DNA, que comprova que o esperma encontrado no corpo da criança é o mesmo do principal suspeito, que foi visto perto da cena do crime. A tribo chega à conclusão de que o assassino é o pai da criança, enquanto o detetive descobre que se tratava de um vizinho da criança.

Quem está com a razão? De acordo com os relativistas seremos obrigados a aceitar ambas as explicações, pois são formas diferentes de verdades com critérios próprios. Mas o assnte para matar a criança, isso seria uma possibilidade trivial que ninguém pretende negar, na verdade o relativista quer dizer algo bem diferente; mas nesse caso somos obrigados a afirmar que o assassino é "relativo" ao critério de investigação? O assassino muda de acordo com o critério? Repare que esse modo de pensar traz também graves implicações éticas, pois os responsáveis pelo crime serão punidos tanto a partir dos critérios da tribo quanto a partir dos critérios de prova ocidentais. Neste caso ambos deveriam ser punidos, segundo os diferentes critérios?

A verdade, ainda nos lembram os relativistas, por ser relativa a diferentes critérios também varia de acordo com o tempo. Assim, se para o homem medieval a sua existência representava a suprema criação de um Deus criador de todas as coisas e ele descendia de Adão e Eva, para o moderno o homem poderia muito bem ser entendido como um mamífero que é um mero produto de processos naturais sem propósito algum. Mais uma vez eu pergunto, quem está certo? De acordo com os relativistas, ambos. Ora, isso quer dizer que o homem de fato era o filho de Deus enquanto acreditávamos nisso? E que agora esse mesmo Deus cristão não existe caso o homem moderno não acreditar mais na sua existência? Em outras palavras, o Deus cristão existe ou deixa de existir de acordo com nossas crenças, de modo que ele tanto existe quanto não existe? Somos mamíferos e produtos de uma natureza cega ao mesmo tempo em que somos descendentes de Adão e Eva?

Outros exemplos: se para os medievais a terra era plana porque motivo agora ela deveria ser redonda? Quer dizer que a terra era chata naquela época enquanto agora é redonda? Ou será que a terra é tanto chata quanto redonda, afinal de contas, a verdade é relativa e depende dos critérios que utilizamos? Será que a revolução copernicana seria apenas uma narrativa? Portanto, o modelo geocêntrico no qual a Terra é o centro do universo seria tão verdadeiro quanto o modelo heliocêntrico? Se a Terra gira ou não em torno de si mesma é uma verdade que poderia variar de comunidade para comunidade, de uma época para outra?

Já o nazismo foi, entre outras coisas, uma forma de racismo que defendeu o ideal da superioridade ariana. Na atualidade a maioria de nós encara tal ponto de vista como absurdo, mas se admitimos o relativismo pós-moderno seremos obrigados a afirmar que a adoração nazi de um povo ariano racialmente puro é tão verdadeira quanto a idéia de que os arianos não seriam naturalmente superiores a quem quer que seja. Portanto os nazi estavam certos, pois isso era verdade "para eles" em seu contexto, enquanto não é uma verdade "para nós"? A superioridade ariana é verdadeira para quem assim o considerar de modo que é falsa para quem não pensa deste modo? Ou existia uma raça ariana superior enquanto agora não existe mais?

Outro exemplo: há algo de diferente em determinado vidro, algumas manchas estranhas. Frente a isso as explicações rivais logo surgem: "essas manchas no vidro", dizem os cientistas, "são apenas manchas, que podemos explicar naturalmente recorrendo à física". "Nada disso", dizem os católicos, "a macha no vidro representa uma imagem de uma Santa! É um milagre!" Qual das explicações está correta? Ambas? Seria uma imagem de Santa e um milagre ao mesmo tempo em que seria apenas uma mancha? Ou será que a mancha é somente uma mancha enquanto investigada por cientistas e se transformaria num milagre e numa representação de uma santa enquanto vista por cristãos? Neste caso o vidro se transformaria de acordo com nossos desejos e critérios? São tais conseqüências absurdas que me deixam perplexo e me fazem perguntar o que se passa na cabeça de um relativista.

Levando-se em conta tal exemplo não poderia deixar de mencionar uma teoria muito difundida entre relativistas, a teoria dos "jogos de linguagem". O pai dessa teoria foi o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Em sua obra Investigações Filosóficas, Wittgenstein defende que a linguagem seria apenas um instrumento e existiriam diferentes tipos de instrumentos para diferentes propostas, todas mutuamente intraduzíveis e incomensuráveis. Assim, não caberia falar, por exemplo, de um conflito entre a ciência e a religião uma vez que ambas teriam propósitos diferentes.

O primeiro problema com essa teoria, como toda postura relativista, é que ela é auto-refutante. Se as diferentes explicações não passam de diferentes jogos de linguagem por que motivo a explicação filosófica dos jogos de linguagem teria um lugar privilegiado e seria encarada como não relativa? Ou essa teoria é apenas mais um jogo de linguagem ou é uma verdade não relativa. Se a teoria dos jogos de linguagem apenas faz parte de mais um jogo de linguagem, ela acaba por não convencer os que não acreditam nesse relativismo. Se ao contrário, a teoria dos jogos de linguagem é uma verdade não relativa, então é falsa, pois existiria pelo menos uma verdade não relativa. Deste modo o relativismo dos jogos de linguagem eliminaria a si mesmo.

O segundo problema, como foi ilustrado pelo exemplo anterior, é que essa teoria não condiz com a realidade: a religião e a investigação científicas ficaram várias vezes em conflito ao longo da história. A religião entra no território científico e secular, pois dá declarações que seriam, pelo menos em princípio, testáveis.

Em resposta a todas essas críticas os relativistas, por sua vez, poderão rebater que essas teorias são absurdas do ponto de vista da lógica, mas os princípios da própria lógica que utilizamos na nossa argumentação são apenas mais uma perspectiva que não seriam obrigados a aceitar. Mas essa reivindicação é incoerente: por que motivo esses mesmos princípios seriam válidos na argumentação relativista, mas inválidos nas críticas que fazemos a essa doutrina? O relativismo pretende se basear nos mesmos princípios da lógica que os seus críticos. Caso contrário, não deveríamos levar a sério suas reivindicações, uma vez que suas conclusões não se seguiriam de suas premissas por qualquer necessidade lógica, mas por pura arbitrariedade.

E a partir das conseqüências absurdas do relativismo pós-moderno podemos verificar que é falsa a noção de que há diferentes critérios para diferentes verdades radicalmente relativas uma vez que a realidade é uma só. O conhecimento não é apenas uma questão de crença, no caso do assassinato da criança, por exemplo, partimos do equívoco de que há duas vias para se chegar á verdade, mas ao verificamos o "método" da tribo nos damos conta de que este nada teria a ver com a investigação da verdade, sendo apenas um preconceito de seus costumes.

Quanto à ciência e aos dogmas de fé, eles entram necessariamente em conflito, como foi ilustrado pelo exemplo das manchas do vidro, porque ambos tentam explicar o mesmo mundo físico, mas as hipóteses religiosas nunca são comprovadas e não representam qualquer método ou critério para se chegar à verdade, não passam de embuste. E é impossível que Deus exista e não exista, visto que é uma mera verdade que nada pode existir e não existir. Essa proposição se contradiz a si mesma porque afirma e nega o mesmo fato: afirma que Deus existe e simultaneamente afirma que Deus não existe.

Pelo mesmo motivo, duas teorias mutuamente excludentes não podem ser ambas verdadeiras. É exatamente por não reconhecer esse fato que o discurso relativista gera tantas contradições absurdas e contra-intuitivas. Na realidade qualquer pretensão de se chegar à verdade é avaliada pelo mesmo critério; seja um historiador que investiga acerca do passado, um detetive que pretende descobrir o autor de um crime, um químico que pesquisa em seu laboratório ou um filósofo que está a avaliar diferentes afirmações, o critério é o mesmo: avaliação crítica e embasamento racional.

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