Filósofos, para quê?



"Ce que l'on peut reprocher à la philosophie
c'est qu'elle ne sert à rien, cependant
qu'elle fait penser quelle peut servir à tout
et en tout.
D'ou l'on peut concevoir deux modes de
Réforme Philosophique: l'un, qui serait de
prevenir qu'elle ne servira de rien; ― et ce
sera la diriger vers l'état d'un art et lui en
donner toutes les libertés ainsi que les gênes
formelles ― l'autre qui serait, au contraire,
de la presser d'être utilisable et d' essayer
de la rendre telle, en en recherchant les
conditions.
Mais il faut, avant de prendre un parti ou
L'autre, se figurer bien nettement ce que
L'on entend par servir et par utilité."

P. Valéry, Cahiers-I, p. 650


1. O recente debate sobre a reestruturação dos Cursos de Letras corre o risco de conduzir mais a ocultação dos problemas do que à sua resolução ou, pelo menos ― é isso que se deve exigir de um debate ― à sua expressão. As peças produzidas são, em geral, um alarmante sinal de tal fenómeno. A excepção, a única excepção, foi o excelente e oportuno texto de Eduardo Prado Coelho, intitulado "A invasão dos pedagogos" (Expresso ― a revista, 14.2.87).

Defendiam-se nesse texto duas ideias que é importante reter e desenvolver: a de que se deve assumir a inutilidade do ensino das Letras e, ao mesmo tempo, defender o valor formativo de tal inutilidade; e a de que é necessário transformar este ensino no sentido de o tornar sensível, acolhedor ao que de fundamental, no domínio das "linguagens e sensibilidades", anima e define a nossa contemporaneidade. O caso da filosofia é apenas, no debate em curso, um dos aspectos da problemática do ensino das Letras; mas talvez seja aquele em que estas ideias mais justificam discussão e análise.

2. Tomando a noção de útil no sentido de "prático", "aplicável", "eficaz", a filosofia é sem dúvida um saber, uma actividade, inútil, ou melhor, utilizando uma bela sugestão de Valéry, frágil. E no entanto ― ponto que é decisivo ― a força dessa fragilidade marcou épocas, talhou teorias; suscitou visões do mundo; criou conceitos, articulou saberes, inventou mundos. A filosofia foi sempre uma actividade que se singularizou pelos imensos efeitos da sua ausência de utilidade.

Para que a pergunta "filósofos, para quê?" tenha sentido, é preciso começar por recusar todas as respostas arcaicas sobre o que é a filosofia, que o mesmo é dizer todas aquelas que supõem que uma tal pergunta não tem nada a ver com o tezes milenar, reeditar com as protocolares reticências um velho e conhecido jogo de cúmplices: "a filosofia é...".

É que não é, e há muito tempo. Foi, é e pode ser: ela vive na agitada, plural dispersão de vários registos, nomeadamente o da tradição e o da prospecção, o do passado e o do futuro. Não que a filosofia não tenha presente, a situação é outra: é como se o presente não lhe chegasse e ela não chegasse ao presente. Sempre lá, mas incapaz de ficar, a filosofia aparece assim como uma disciplina imprecisa, insustentável: demasiado vasta ou demasiado restrita, exageradamente técnica ou exageradamente literária, ela não tem domínio nem método que a caracterizem, ou tem de mais.

3. Se do passado ela procura a lógica, do futuro ela tece a estratégia, perscruta os sinais. Mas num como no outro desses esforços (que são também duas poses e podem ser dois estilos) ela pode formular, a cada momento, os seus problemas. E neles, e na argumentação com que os pensa, encontrar a legitimação do seu trabalho. Legitimação que, de índole prática ou de matriz teórica, é sempre, no limite, auto-legitimação. É nesta imanência, que é também a de um presente sempre precário, sempre insuficiente, que se joga o destino sem futuro certo das filosofias.

Por outro lado, o ensino da filosofia move-se geralmente num corredor estreito, entre o descritivismo e o doutrinarismo: em ambos os casos, se procura uma filiação impossível, a da filosofia no paradigma da utilidade. No primeiro conta-se uma longa, demasiado longa história, que habitualmente começa nos pré-socráticos e acaba onde calha, pretendendo assimilar-se a sucessão dos filósofos a uma narrativa da progressiva história da civilização e da humanidade. No segundo privilegia-se a irradiação de certas teses em determinados contextos, anulando-se os problemas que as suscitaram na promoção "dogmática" das soluções propostas. Comum às duas abordagens é a estratégia que as anima: a da redução da filosofia à história da filosofia.

4. É preciso que se entenda: uma coisa é a filosofia, outra a história da filosofia: e o facto de a filosofia não possuir objectos específicos não transforma a tradição no seu território. Para a filosofia, a história da filosofia pode funcionar como esclarecimento informação relativamente aos seus problemas actuais; para a história da filosofia, a filosofia pode ser um elemento de reactivação e de reformulação de problemas "tradicionais". Em rigor, o estudo estritamente histórico da história da filosofia não tem, a ser possível, necessariamente nada a ver com a filosofia.

Mas se a filosofia não é a história da filosofia, ela também não é um acréscimo, um suplemento de tipo reflexivo, das várias disciplinas ou saberes. Os tempos recentes mostram mesmo que as diversas disciplinas ― a arte, as ciências (a física, a biologia), as teorias literárias ― produzem cada vez mais os seus próprios meta-saberes, exigindo assim uma outra relação com o campo filosófico (do que, infelizmente, às vezes os filósofos são os últimos a dar-se conta).

5. Há duas posições que, assim, são vitais para a filosofia: não se identificar (num esgotamento, numa senilidade talvez precoce) com a sua própria história; não se acantonar numa posição reflexiva (seja fundamentalista, seja epistemológica) face. aos outros saberes e disciplinas. Só assim a filosofia pode desenvolver uma criatividade própria, não-parasitária, que é uma criatividade problemática: a actualidade da filosofia não reside hoje, como não residiu nunca, na sua utilidade, mas na sua capacidade para propor e desenvolver problematizações heuristicamente interessantes sobre o mundo, os saberes, os acontecimentos.

Se a "missão" da filosofia deve ser, como defendia Russell, desenvolver a imaginação, é por esse ousado desenvolvimento que passa também o problema da "saída" profissional dos filósofos. Talvez a leitura de uns extractos do artigo "Philosophy comes down from the clouds", publicado pelo Economist, possa ser, neste aspecto, de alguma ajuda, de algum estímulo: "Desde 423 a.C., data em que Aristófanes caricaturou Sócrates e a sua lógica em As Nuvens, os filósofos não pararam de nos divertir. Hoje, parecem desempenhar outras funções. Subitamente, entraram no mundo do trabalho. Uns, como nos hospitais do Estado de New York, aconselham os médicos nas suas decisões vitais. Outros aconselham o corpo legislativo do Estado de New Hampshire, outros ainda as autoridades penitenciárias do Connectitut. Debruçam-se também sobre os problemas postos pelo controlo dos detritos nucleares e pela engenharia genética.

O próprio Congresso conta no seu seio com quatro filósofos que ajudam os senadores a resolver as questões mais espinhosas (...) As ligações criadas na Universidade perduram na vida activa. Os títulos das revistas universitárias são reveladores: Philosophy and Public Affairs (Princeton) ou Journal of Applled Philosophy (Univ. de Surrey), assim como os de alguns centros de estudos, como os de 'deontologia profissional' no Instituto de Tecnologia de Illionois ou o de 'filosofia e de política' na Universidade de Maryland.

Em torno destes centros, multiplicam-se os cursos e as conferências. Nos anos setenta, houve trezentos e vinte e dois cursos e conferências sobre a ética comercial nas Universidades e nos "colleges" americanos. Citemos o exemplo da Escola Superior de Comércio de Harvard, onde os filósofos falam de poluição, de direitos dos trabalhadores, da ética do comércio internacional. Seria um erro pensar que os filósofos se contentam em aproveitar esta espécie de mercado de luxo que representa a ética. Os seus estudantes acham que uma formação em Filosofia Analítica constitui um excelente trunfo no comércio, e este sucesso recai sobre os professores que ensinam a mais singular das disciplinas universitárias. Com excepção dos estudantes em Matemáticas, os estudantes em Filosofia são aqueles que mais sucesso têm nos exames de acesso às escolas de comércio e gestão. Mesmo mais do que os que estudam Economia, Comércio ou qualquer outra matéria própria à sua profissão. Entre 1964 e 1982, ultrapassaram a percentagem média de admissão nas grandes escolas especializadas em pelo menos 5%. Nenhuma outra disciplina realizou alguma vez um tal score.

Estes resultados verificam-se ao nível do emprego: em 1983, 11% dos doutores em Filosofia encontraram emprego no comércio ou na indústria (...) E os salários dos doutores em Filosofia são muito superiores aos salários médios dos doutores em Ciências Humanas. Os filósofos tem mais chances de encontrar um emprego do que os químicos ou os biólogos, que geralmente se consideram particularmente aptos para a vida activa. E nos escritórios dos advogados, a sua obsessão pela argumentação vale aos filósofos a reputação de excelentes juristas (...)"[1]


Manuel Maria Carrilho

 

[1] Chamo a atenção para o texto de E. Holenstein, "Novas perspectivas profissionais para os filósofos?" (JL, 23.2.87), onde se dá conta da colaboracão de filósofos com investigadores da "Cognitive Science" na Alemanha, particularmente na Univ. de Bochum.

 

Jornal de Letras, n.º 245 de 16 de Março de 1987

 

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