Anarquismo


Chega de leis! Chega de juizes! Liberdade, igualdade e simpatia prática humana são as únicas barreiras eficientes que podemos opor aos instintos anti-sociais de alguns de nós.

(Peter Kropotkin, Lei e Autoridade (1886),
repr. in The Anarchist Reader, 117)

Mesmo Rousseau, que acreditava na inocência natural do homem, pensava que em última instância a vida sem governo seria intolerável. No entanto, alguns pensadores anarquistas tentaram resistir a esta conclusão. William Godwin (1756-1836) marido de Mary Wollstonecraft (1759-97) (ver o Capítulo 3), discordava de Rousseau em dois pontos. Em primeiro lugar, os seres humanos, quando 'aperfeiçoados', poderiam tornar-se não só não agressivos como também altamente cooperantes. Em segundo, este estado preferível para os seres humanos não estaria enterrado num passado distante, mas num futuro inevitável no qual o estado já não seria necessário. O anarquista russo, Peter Kropotkin, sustentava um ponto de vista análogo, segundo a qual todas as espécies animais, incluindo os seres humanos, lucravam através da 'ajuda mútua' natural. Ele avança esta teoria como alternativa à teoria de Darwin da evolução através da competição. As mais aptas, sugere Kropotkin, são as espécies capazes de cooperar.

Kropotkin foi capaz de reunir provas impressionantes de cooperação no reino animal e outros anarquistas defenderam ― de certeza correctamente ― que há uma enorme quantidade de exemplos de cooperação não forçada entre seres humanos. Muitos filósofos e cientistas sociais aceitaram que mesmo agentes altamente egoístas tenderão a desenvolver padrões de comportamento cooperativo, mesmo por razões puramente egoístas. A longo prazo a cooperação é melhor para cada um de nós. Se o estado de guerra é prejudicial para todos, então criaturas racionais e individualistas irão eventualmente aprender a cooperar.

Mas, como Hobbes rapidamente apontaria, por mais provas que existam de cooperação, e por mais racional que a cooperação possa ser, existem ainda muitas provas de competição e exploração, e isto com frequência parecerá também racional. E, como a maçã podre, uma pequena quantidade de comportamento anti-social pode espalhar os seus maus efeitos a tudo em que toque. O medo e a desconfiança irão corroer e desgastar muita da cooperação espontânea ou desenvolvida.

Uma resposta que os anarquistas poderiam dar consistiria em dizer em que não existem maçãs podres. Ou pelo menos, na medida em que existem, são a criação dos governos: como Rousseau sugere, tornámo-nos indolentes e corruptos. Os anarquistas defendem que propomos os governos como um remédio para os comportamentos anti-sociais, mas quseres humanos parece ser uma esperança impossível. De facto, a tese parece destruir-se a si mesma. Se somos todos naturalmente bons, como é que um estado opressivo e corrupto se tornou possível? A resposta mais óbvia é que alguns indivíduos gananciosos e astutos, por intermédio de vários meios indecorosos, conseguiram tomar o poder. Mas então, se estas pessoas existiram antes do estado existir, como teriam de ter existo de acordo com esta teoria, não podemos ser todos naturalmente bons. Por conseguinte, confiar a tal ponto na bondade natural dos seres humanos parece extremamente utópico.

Por este motivo, a maior parte dos anarquistas prudentes deram uma resposta diferente. A ausência de governos não significa que não possam existir formas de controlo social sobre o comportamento dos indivíduos. A pressão social, a opinião pública, o medo de uma fraca reputação, mesmo a bisbilhotice, podem exercer os seus efeitos sobre o comportamento individual. Os que tiverem um comportamento anti-social serão banidos.

Para além disso, muitos anarquistas aceitaram a necessidade da autoridade de especialistas na sociedade. Algumas pessoas sabem como melhor cultivar a comida, por exemplo, e é sensato aceitar a sua opinião. E, no interior de um grande grupo, as estruturas políticas são necessárias para coordenar o comportamento em média e larga escala. Por exemplo, em tempos de conflito internacional até uma sociedade anarquista precisa de generais e de disciplina militar. O respeito pela opinião de especialistas e a obediência às regras sociais podem também ser essenciais em tempo de paz.

Diz-se que estas regras e estruturas não são equivalentes a estados porque permitem ao indivíduo escolher: em consequência são voluntárias num sentido em que nenhum estado é. Como veremos no próximo capitulo, o estado reclama um monopólio do poder político legítimo. Nenhum sistema social anarquista e 'voluntarista' o faria. No entanto, a existência de pessoas anti-sociais que se recusam a integrar a sociedade voluntária coloca um dilema aos anarquistas. Se a sociedade anarquista se recusa a tentar reprimir o comportamento de tais pessoas, então corre risco de cair em graves conflitos. Mas se faz valer as regras sociais contra tais pessoas, então, de facto, torna-se indistinguível de um estado. Em suma, à medida que a concepção anarquista da sociedade se torna cada vez mais realista e menos utópica, também se torna cada vez mais difícil distingui-la de um estado liberal e democrático. Em última instância, talvez nos falte uma descrição do que uma situação pacífica, estável e desejável seria na ausência de algo parecido com um estado (com a excepção dos relatos antropológicos das pequenas sociedades agrárias).

Todavia, como veremos no próximo capítulo, o anarquismo não poderá ser rejeitado assim tão facilmente. Vimos algumas das desvantagens do estado de natureza. E as desvantagens do estado? Até que ponto será racional centralizar o poder nas mãos de poucos? Temos ainda de examinar os argumentos apresentados para justificar o estado. Se se provar que estas tentativas para justificar o estado não funcionam, então teremos de voltar a olhar para o anarquismo. E de facto, por esta mesma razão, teremos de retomar este assunto.


Tradução de Renata Coutinho.

 

Jonathan Wolff, An Introduction to Political Philosophy, Oxford University Press, Oxford, 1996, pp. 32-35.

 

© Filosofia e Educação, 2001-2008. Todos os direitos reservados.

filedu@filedu.com