O incrível Randi


Felizmente, o mundo não está tão perigoso como querem fazer-nos crer: as hordas de poltergeists, raios da morte, espíritos hostis, extraterrestres ou códigos bíblicos, cuja existência nos é "assegurada" por fontes de credibilidade duvidosa, são fruto simultaneamente da imaginação e da credulidade humanas deste virar de milénio.

O CSICOP, organização de cépticos criada e mantida por cientistas de primeira linha, de psicólogos a matemáticos, de biólogos a físicos, dedica-se a investigar séria e imparcialmente, utilizando o método científico, afirmações relacionadas com alegados fenómenos paranormais. Em vinte e dois anos de actividade desmontou dezenas de casos que de outra forma teriam passado acriticamente para o grande público como "casos verídicos de fenómenos paranormais" (apesar de tudo, isso continuou a acontecer com alguns desses casos; o CSICOP chama-lhes "os patinhos de borracha inafundáveis").

Apontaram-se no capítulo anterior duas causas para o insólito fenómeno da credulidade humana: uma, de ordem filosófica, a que o psicólogo Paul Kurtz chama a "tentação transcendental"; outra, de ordem lógica, que é a impossibilidade de demonstrar uma afirmação negativa.

Há, no entanto, uma terceira razão bem menos nobre que arrasta multidões para a crença no paranormal. É que uma enorme parte dos supostos fenómenos paranormais não passa de mera fraude.

Os exemplos são intermináveis e, a posteriori, patéticos. Tomemos o espiritismo moderno. A partir de 1848, as irmãs Fox, Katharine e Margaret convenceram a Inglaterra vitoriana de que comunicavam com espíritos, que respondiam às suas perguntas com pequenas pancadas secas. Durante décadas conduziram sessões que as tornaram mundialmente famosas e promoveram a sua Sociedade Espírita nos Estados Unidos; foram as primeiras médiuns e marcaram o início dos movimentos espíritas.

O físico William Crookes, inventor do radiómetro, foi por elas convertido ao espiritismo; depois de uma sessão em 1871, em Londres, declarou ter «testado as pancadas de todas as formas possíveis até ser inevitável concluir que eram ocorrências genuínas, não produzidas por truques ou meios mecânicos». Em 1888, já no declínio das suas vidas, as irmãs confessaram e demonstraram publicamente a sua fraude: tinham uma pequena anomalia nos pés e conseguiam fazer estalar as articulações dos dedos com um som que parecia uma pancada. No entanto, o efeito foi nulo: os movimentos espíritas já eram a grande moda vitoriana e havia milhares de médiuns em Inglaterra. Tal como hoje.

De resto, os meios espíritas têm uma longa e notável história de fraude. Daniel Day Home, o mais famoso espírita da Inglaterra vitoriana, que materializava ectoplasmas, levitava na escuridão e alegadamente teria mesmo voado por uma sala, saindo por uma janela aberta e entrando por outra, foi exposto como realizando apenas truques de ilusionismo. Isso não alterou a sua fama. No virar do século, as médiuns mais famosas daquele tempo, Leonora Piper e a italiana Eusapia Palladino, foram expostas como realizando meros truques fraudulentos (Palladino chegou a afirmar que usava truques «sempre que os meios legítimos não funcionavam», o que significa que, em cada sessão, tinha de os ter preparados, pelo sim, pelo não...). O grande ilusionista Houdini especializou-se em desmascarar as fraudes «espíritas» nos anos 20: as irmãs Bangs de Chicago; Eva C., aliás Marthe Béraud; os irmãos Davenport; «Margery», aliás Mina Crandon... a lista é interminável.

Um exemplo mais recente e mediático de fraude é o dos círculos nos campos de trigo que começaram a aparecer em Inglaterra e que supostamente não poderiam ter sido feitos com meios humanos, de acordo com «especialistas em agronomia». Seriam, portanto, marcas de aterragem de OVNIS de uma civilização superior, segundo alguns, ou teriam origens místicas, segundo outros. Em 1991 dois reformados, Doug Bower e Dave Chorley, demonstraram como tinham feito as primeiras marcas, que foram subsequentemente copiadas. Mesmo assim, nem todos ficaram convencidos: os crentes declararam que estes círculos não eram como os «autênticos». Um jornal inglês pediu secretamente a Doug e a Dave que criassem um destes padrões, tendo depois chamado os especialistas para se pronunciarem sobre ele: estes declararam tratar-se de um padrão autêntico.

Os exemplos podiam multiplicar-se: das fadas de Cottingley (uma fotografia campestre de duas meninas inglesas a brincar com fadas de 10 cm... de papel), que enganaram Conan Doyle, ao homem de Piltdown, que durante quarenta anos esteve exposto no Museu Britânico, até se descobrir que era uma fraude realizada pelo seu «descobridor», ou ainda aos «poderes psíquicos» que permitem dobrar colheres de metal (um vulgar truque de salão, que os ilusionistas Penn e Teller descrevem na Internet).

Um caso particularmente hilariante é o de Roswell, Novo México, onde grande parte da população mundial continua convencida de que caiu um OVNI em 1947, tendo o governo federal recuperado os cadáveres de extraterrestres, submetendo-os a autópsias e tentando depois encobrir e abafar o caso com mentiras e invenções. Quem não se recorda de em pleno Verão de 1995 ter surgido o tristemente célebre filme forjado da Autópsia Extraterrestre, que rendeu milhões de dólares ao seu possuidor?

A única relação destas afirmações com a realidade é o facto de o governo americano ter tentado encobrir algo. Em 1947, no dealbar da guerra fria, os EUA desenvolviam um projecto militar ultra-secreto, o projecto Mogul. Recorde-se que nessa altura os EUA detinham o monopólio nuclear e sabiam da existência de programas de desenvolvimento e de espionagem soviéticos. O projecto Mogul consistia em dispor em todo o mundo de uma rede de sondas ultra-sensíveis, disfarçadas de balões atmosféricos, que permitissem detectar as ondas de choque ocorridas em eventuais ensaios nucleares. Um desses balões despenhou-se em Roswell. É claro que a Força Aérea se apressou a fazer desaparecer o mais rapidamente possível tudo o que se relacionasse com o caso; afinal, era um projecto top secret. A fraude, neste caso, foi a vários níveis: por um lado, a Força Aérea americana incentivou os rumores e especulações sobre OVNIS e extraterrestres precisamente para desviar as atenções do projecto Mogul; por outro, os media, ao longo de muitos anos, ignoraram ou ocultaram activa e irresponsavelmente factos ou testemunhos que contrariavam as teses «extraterrestres». Como o ano 2000 deprimentemente mostrou na TV portuguesa, é preciso conquistar audiências a todo o custo ― mesmo, se for caso disso, à custa da verdade.

O mais curioso nesta história é que, se a imaginação popular não esqueceu o pseudofilme da Autópsia Extraterrestre, ignorou completamente o que se passou dois anos depois. Em 1997 a Força Aérea americana, passados os cinquenta anos necessários, desclassificou os ficheiros sobre o projecto Mogul e publicou um relatório oficial sobre estes factos, organizado pelo capitão James McAndrew (The Roswell Report: Case Closed). Nesse relatório, a Força Aérea faz algo de extraordinário, quase inaudito numa instituição militar: assume a sua responsabilidade na contra-informação que pôs a circular! Publicado originalmente pelo Divisão de Publicações da Força Aérea americana, este relatório foi entretanto editado, ipsis verbis, em 1997 pela Barnes and Noble em colaboração com a Força Aérea. Houve, de facto, uma conspiração governamental em Roswell ― mas para encobrir o projecto Mogul. Saber exactamente o que se passou está a um clique de distância: basta ir à Amazon. Outra referência em que o relatório vem digerido é The Roswell UFO Crash: What They Don't Want You to Know, de Kal K. Korff.

Tente-se, no entanto, dizer isto a um adepto dos X-Files: responderá que esta é apenas uma nova metaconspiração governamental! Roswell tornou-se um patinho de borracha inafundável.

Uma das tarefas do CSICOP é a desconstrução destas fraudes ― o que nos conduz ao seu mais notável fundador: James Randi.

Randi não é cientista. É ― ou melhor, foi ― um ilusionista profissional, "o incrível Randi". Com cerca de 60 anos, barba branca hirsuta, umas mefistofélicas sobrancelhas negras e olhos penetrantes, Randi tem uma carreira de quarenta anos no palco. É também líder e activista de movimentos cépticos e, desde 1996, fundador da JREF, James Randi Educational Foundation ― uma fundação dedicada a "combater a desinformação, a pseudociência e a fraude". Randi circula pelo mundo, dando espectáculos de ilusionismo, bem como conferências e cursos sobre pensamento crítico no Caltech, MIT, Harvard e nas melhores universidades do mundo; foi professor na Universidade de Nova Iorque e na UCLA. Recebeu inúmeros prémios, entre os quais um da American Physical Society, pelo seu trabalho. É um escritor produtivo, com mais de uma dezena de livros e centenas de artigos publicados. E, acima de tudo, gosta de expor a fraude. James Randi é o Harry Houdini dos nossos tempos.

Como Kurtz e os outros fundadores do CSICOP, Randi está preocupado com a febre irracionalista que se vive no mundo de hoje. A sua actividade de ghostbuster começou em inícios dos anos 70, quando decidiu expor uma das fraudes mais famosas dessa época, o alegado «psíquico» Uri Geller ― o homem que dobrava colheres e consertava relógios com o «poder da mente». Randi começou por aparecer em programas televisivos em que replicava ao vivo os feitos de Geller, demonstrando os truques utilizados. Passou a ser consultor para alguns canais de TV. Após um espectáculo em que Johnny Carson, orientado por Randi, entrevistou Geller e este não conseguiu realizar qualquer truque do seu reportório, Geller proibiu a presença de ilusionistas nas suas actuações. Em 1975, Randi publica A Verdade sobre Uri Geller, onde explica a bateria de truques e fraudes utilizada por este ― tendo o cuidado de lhe permitir salvar a face: enviou-lhe o manuscrito antes da publicação, dizendo que não publicaria o livro se Geller reconhecesse publicamente que o que fazia era ilusionismo e que não tinha quaisquer poderes psíquicos. A resposta de Geller foi um processo em tribunal. O livro foi publicado, o processo arrastou-se durante mais de dez anos nos tribunais e resolveu-se recentemente, dando razão a Randi.

Randi é ainda consultor de diversas organizações; realiza e coordena investigação científica destinada a expor fraudes, ou por vezes apenas erros, em casos alegadamente paranormais. Já esclareceu o que se passava em largas dezenas de casos, desde duas senhoras húngaras com alegados «poderes magnéticos« (os objectos colar-se-iam a elas e não caíam) a supostos desaparecimentos no triângulo das Bermudas, a experiências sobre «água com memória», uma das alegadas pedras de toque da homeopatia do século XX.

As explicações são por vezes surpreendentemente simples. Por exemplo, Charles Tart, psicólogo da Universidade da Califórnia, é defensor da «percepção extra-sensorial», sobre a qual realiza investigação. Diz ele que aquilo que o convenceu de que a ESP existia foi um episódio passado durante a guerra em Berkeley. Uma assistente dele relatou-lhe de manhã que nessa noite tinha acordado em sobressalto, com um pressentimento estranho. Dirigiu-se à janela e, nessa altura, a janela começou a tremer violentamente. Pensou que fosse um tremor de terra. Pouco depois, ao ouvirem as notícias no rádio, aperceberam-se de que um navio de munições tinha explodido em Port Chicago, a 50 km de distância ― uma explosão violentíssima que arrasou a pequena cidade e matou 300 pessoas. Conclusão de Tart: a percepção extra-sensorial existe. De que outra forma poderia ela «sentir» a explosão antes que a onda de choque atingisse Berkeley?

A resposta de Randi foi simples. Pediu a um amigo geólogo que calculasse a diferença de tempos de propagação de uma onda de choque através da terra e através do ar ao longo de 50 km. Resposta: a onda de choque terrestre chega 8 segundos antes. O que aconteceu foi que a onda de choque terrestre atingiu o quarto, fê-lo estremecer e a senhora acordou sobressaltada. Dirigiu-se à janela, e 8 segundos mais tarde a onda de choque aérea atingiu a zona, fazendo estremecer a janela.

Reacção de Tart: «Sr. Randi, essa pode ser a explicação que prefere. Não é a minha.» É, infelizmente, uma reacção típica dos convertidos: se há factos que fornecem explicações alternativas a um sistema de convicções, tanto pior para os factos. E Tart, note-se, é um respeitável professor catedrático da Universidade da Califórnia que investiga estes fenómenos ― não um mero espectador de quaisquer X-Files.

O trabalho da JREF no combate à credulidade, ao irracionalismo e à fraude é notável; o leitor é cordialmente convidado a visitar na Internet o respectivo site, www.randi.org. Randi publica uma newsletter semanal onde relata as experiências e actividades da fundação, onde coloca desafios aos leitores, por exemplo, fotografias reais de objectos que parecem OVNIs tal como aparecem em publicações de OVNIlogistas, desafiando os leitores a descobrirem de que se trata. Visitar a fundação de Randi é como ir a uma aula de aeróbica mental.

Mas o mais impressionante desafio de Randi no seu combate à fraude é aquilo a que chama o desafio paranormal do milhão de dólares. Inicialmente colocado com o prazo de 1 de Janeiro de 2000, mas entretanto prolongado para sempre, consiste no seguinte.

James Randi desafia publicamente qualquer pessoa ou pessoas que afirmem possuir qualquer tipo de «capacidades psíquicas, sobrenaturais ou paranormais» a demonstrá-las sob condições de observação controladas e de acordo com protocolos experimentais científicos e acordados entre ambas as partes. No caso de o teste ser positivo, a pessoa em questão receberá imediatamente um milhão de dólares (Randi até diz o número da conta em que tem o dinheiro depositado). No caso de ser negativo, os dados (fotográficos, escritos, etc.) do teste poderão ser utilizados pela JREF para os fins que muito bem entender. O processo de candidatura está aberto a todas as pessoas; o formulário está disponível na Internet no site da JREF.

Curiosamente, ou talvez não, Randi nunca recebeu candidaturas de nenhum dos grandes «psíquicos» mundiais. Talvez a má consciência, aliada ao facto de a JREF poder publicitar como entender os resultados dos testes, os desencoraje. Para eliminar desculpas fáceis, Randi afirma: «Há quem diga que os verdadeiros mestres psíquicos não mostram os seus poderes por dinheiro. Não há problema. Se alguém possui poderes, mas não quer o dinheiro, que indique uma lista de instituições de caridade às quais, se o teste for positivo, entregarei o milhão de dólares. Elas, sim, agradecerão o dinheiro. E o mestre psíquico em questão estará a realizar a acção mais nobre da sua vida. Como poderá recusar-se a fazê-lo se de facto possui os poderes paranormais que afirma?»

Até agora praticamente todos os testados foram pessoas que de alguma forma estavam genuinamente convencidas de que possuíam algum tipo de capacidade paranormal: clarividência, percepção extra-sensorial, psicocinese. Em todos os casos um teste formal de acordo com protocolos experimentais rigorosos, testes duplamente cegos e padrões de validação científicos mostrou sempre a inexistência da suposta capacidade paranormal. Os resultados, nalguns casos de candidatos de boa fé, foram mesmo algo patéticos: chegaram a exprimir verdadeira decepção e desgosto. Randi mantém-nos informados sobre testes a candidatos com a sua newsletter.

E o desafio paranormal do milhão de dólares continua de pé.

Num mundo cada vez mais infectado pela febre da irracionalidade, o incrível Randi é uma espécie de álcool puro que nos permite higienicamente manter a sanidade mental.

 

Jorge Buescu, O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias, Gradiva, Lisboa, 2001

 

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