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Passos em Falso: falsas dicotomias
Você não conseguiria encontrar uma demonstração mais perfeita de uma falsa dicotomia que a afirmação ousada do Presidente, feita logo após o ataque ao World Trade Center, em 2001. Uma falsa dicotomia apresenta duas opções como se elas esgotassem todas as possibilidades, quando na verdade há outras escolhas possíveis. Neste exemplo, uma alternativa à escolha de Bush é a oposição tanto ao terrorismo quanto aos métodos preferidos pela América para lidar com ele. Uma pessoa ou país que adota esta linha não é favorável ao presidente, mas também não o é aos terroristas. Em uma interpretação generosa do discurso de Bush, poder-se-ia dizer que ele não tentava sugerir que a escolha fosse tão restrita. Mas ele prossegue: "Deste dia em diante, qualquer nação que continue abrigando ou apoiando o terrorismo será vista pelos Estados Unidos como um regime hostil". Isto sugere que não estar "conosco" significa aquiescência ao terrorismo e não apenas ausência de apoio à política americana. De fato, quando Bush repetiu a dicotomia poucas semanas depois, no contexto de uma fiscalização nas finanças dos terroristas, novamente a mensagem principal parecia ser que fechar os olhos ao terrorismo significaria estar contra a América em sua luta contra ele. Mas, se isto é verdade, por que razão Bush não somente escolheu estas palavras em particular, mas também as repetiu? Uma resposta possível é que, como descrição dos fatos, a dicotomia é falsa; mas, como descrição das intenções da América, elas enviaram uma mensagem clara. Na verdade pode ser que você não apóie nem os terroristas, nem a América. Entretanto, se escolher não apoiar a América, ela o verá como adversário. A América faz parecer verdadeira a inverdade da falsa dicotomia ao decidir que tratará aqueles que não a apóiam como adversários, quer se vejam desta forma, quer não. Esta é uma razão pela qual os europeus têm acusado a administração Bush de adoptar uma atitude intimidante. Qualquer que seja a interpretação que se dê às palavras de Bush, é evidente que, tomadas em seu sentido literal, elas são simplesmente falsas. Ainda assim, o recurso retórico de apresentar uma falsa dicotomia (ou falso conjunto de mais opções que duas) é muito popular. Encontramos freqüentemente uma versão dele na literatura cristã evangélica. Cristo, diz-se, alegava ser filho de Deus. Ele podia estar louco, mentindo ou dizendo a verdade. Não há evidências de que fosse louco ou mentiroso, conseqüentemente deve tam as possibilidades. É possível que Jesus não tenha feito essa afirmação - os Evangelhos podem não ser confiáveis. É possível também que ele tivesse querido dizer algo mais metafórico. Afinal de contas, no Gênesis diz-se que "Quando os homens começaram a se multiplicar sobre a terra e geraram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e se casaram com as de sua escolha." (6:1-2) É evidente, pois, que ser o filho de Deus não tem um único significado. É possível que signifique menos que o comumente aceite. Por qualquer que seja o ângulo em que se veja a questão, há mais de três opções apresentadas. Se levássemos ao extremo o policiamento a falsas dicotomias, perderíamos algumas citações. "A vida é ou uma grande aventura ou nada," disse Helen Keller. Bem. Não é assim, mas entendo o que ela quis dizer e não poderia ter sido mais apropriado. O mesmo para a máxima de Anthony Robbins, "Na vida, você precisa ou de inspiração ou de desespero". Melhor ainda, o aviso de Max Lerner, "ou os homens aprenderão a viver como irmãos, ou se matarão como bestas," não é menos vigoroso por ser literalmente falso. A falsa dicotomia é uma grande simplificadora. Anula toda a complexidade de uma questão e apresenta apenas duas escolhas: pegue-as ou deixe-as. Há momentos em que a força retórica justifica uma simplificação arbitrária, mas temos de lembrar que é uma simplificação. Se aceitarmos estas dicotomias muito facilmente ou como se mostram, corremos o risco de imaginar que o mundo é todo em preto e branco. Neste caso, perderíamos os tons críticos de cinza. Tradução para português do Brasil de Eliana Curado Universidade Católica de Goiás, Brasil. Professora de Filosofia Antiga, Filosofia da Arte e Lógica. Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás.
Julian Baggini, in ButterfliesandWheels.com |
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