Passos em Falso: a lacuna entre ser e dever ser


"Os seres humanos não se desenvolveram para se tornar monógamos; a sobrevivência da espécie depende da diversidade."

Fiona Horne, 8 de março de 2003, The Guardian Weekend

Caso você nunca tenha ouvido falar de Fiona Horne, esta antípoda multitalentosa é uma estrela de rock, jornalista, autora, modelo e feiticeira. É verdade. Ela escreveu cinco livros sobre feitiçaria, incluindo Bruxaria: Um Manual para Bruxas Adolescentes. Goste ou não, o que esta pessoa diz é publicado e ouvido. Julgue por si mesmo se isto é uma boa coisa. Quando lhe perguntaram "Com que freqüência você faz sexo?" Horne respondeu, "Todo orgasmo é uma oferta sagrada ao universo." Quando perguntaram se acreditava na vida após a morte, ela replicou: "A energia que possuímos tem de ir para algum lugar." Sabedoria de bruxa ou besteira de bruxa amalucada? Deixarei que você julgue.

Suas meditações acerca da evolução se deram em resposta à pergunta "Você acredita em monogamia?" Sua resposta parece sugerir que não, mas na verdade ela não dá uma resposta direta e sua resposta não nos ajuda a saber se ela quer dizer sim ou não.

A resposta de Horne traz duas afirmações factuais: que não evoluímos para a monogamia e que a diversidade é essencial para a sobrevivência da espécie. Horne tem o respaldo da maioria dos psicologistas evolucionários na primeira afirmação, já que eles concordariam que a monogamia rigorosamente observada não é um comportamento padrão que favoreça a evolução. Todavia, a segunda parte de sua afirmação ― que "a sobrevivência da espécie depende da diversidade" ― é um non sequitur. Não há, no fim das contas, evidência alguma de que a prática rigorosa da monogamia ameaçaria a "diversidade" exigida para a sobrevivência humana. O principal tipo de diversidade requerida para que a espécie floresça é a missigenação, o que pode ser ameaçado pela procriação excessiva, não pela monogamia.

Portanto o único ponto pertinente em sua réplica é que nós não evoluímos com uma propensão à monogamia. Mas mesmo que isto seja verdadeiro, o que se perguntou foi se Horne acreditava em monogamia. Normalmente entendemos que a pergunta destina-se a saber se alguém considera a monogamia uma boa coisa. (É evidente que não se perguntou se ela acha que a monogamia existe.) Se esta é a pergunta, como é possível que, ao falar sobre evolução, ela pode sequer ter começado a responder?

O problema é que a história de nossa evolução só pode nos oferecer fatos (ou talvez deveríamos dizer hipóteses) que expliquem porque os seres humanos têm certas inclinações para tipos particulares de comportamento. O que não se pode f nos exige às vezes ir contra nossas predisposições desenvolvidas. Por exemplo, muitos psicologistas evolucionários diriam que nosso desenvolvimento nos levou a colocar o bem-estar de nossos familiares acima do de estranhos. Mas isto não significa que é certo favorecer um parente em detrimento de um estranho melhor qualificado, numa concorrência para um trabalho. O que é certo não é necessariamente o que estamos mais dispostos a fazer.

O ponto geral é que nada sobre o que devemos fazer segue-se necessariamente do que de fato fazemos, ou temos predisposições para fazer. Isto é conhecido como a lacuna entre o ser e o dever ser, e foi expresso pela primeira vez em uma famosa passagem do Tratado Sobre a Natureza Humana, de David Hume. O ponto de Hume é de uma lógica simples. Nenhum enunciado valorativo (o que "deve" ser) se segue de premissas que simplesmente descrevem fatos (o que "é"). Se você quiser raciocinar a partir do fato de que chutar as pessoas causa dor e chegar à conclusão de que você não deve chutá-las sem boa razão, você não pode fazê-lo a menos que acrescente ao raciocínio um juízo de valor, tal como "causar dor sem boa razão é errado". É preciso atribuir valores às coisas para extrair delas valores: eles nunca são simplesmente gerados pelos fatos.

O debate acerca da lacuna entre o ser e o dever ser tornou-se realmente sofisticado e muitos filósofos argumentam que esta lacuna não é insuperável. Mas, ainda que possa ser superada, requer bom raciocínio e demonstração. O que não se pode justificar é um salto de fatos a valores sem uma demonstração de como isto pode acontecer. E certamente, responder a uma pergunta sobre valores com uma afirmação incisiva acerca do fato, como Horne fez, não é de modo algum responder à pergunta, não importando o que aquele que responde pense.


Tradução para português do Brasil de Eliana Curado

Universidade Católica de Goiás, Brasil.

Professora de Filosofia Antiga, Filosofia da Arte e Lógica.

Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás.

 

Julian Baggini, in ButterfliesandWheels.com

 

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