Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Resumo)



CAPÍTULO 9

O MUNDO DOS UNIVERSAIS

As relações têm um ser que é diferente do dos objectos físicos, do das mentes e do dos dados dos sentidos.


Problemas:

1. Qual é a natureza deste género de ser?

2. Que objectos existem que têm este género de ser?

Análise da questão 2 (que objectos são universais):

  • o problema é bastante antigo; foi trazido para a filosofia por Platão. A teoria das ideias de Platão é uma das mais bem sucedidas tentativa feitas até agora para resolver este problema.

  • a teoria advogada no que se segue é largamente a de Platão, com as modificações apenas que o tempo mostrou serem necessárias.

  • Descrição da origem do problema em Platão:


    É natural, se nos perguntarmos o que a justiça é, proceder pela consideração deste, daquele e do outro acto justo, com a intenção de descobrir o que têm em comum. Todos devem partilhar uma natureza comum que está presente no que é justo e nada mais. Esta natureza comum, em virtude da qual são todos justos, será a justiça em si mesma, a essência pura que produz a multiplicidade dos actos justos. O mesmo se dá com qualquer outra palavra que possa ser aplicada a factos comuns, como, por exemplo, «brancura». A palavra será aplicável a um número de coisas particulares porque todas participam de uma natureza comum ou essência. Esta essência pura é o que Platão chama uma «ideia» ou «forma». (as «ideias», no sentido que dá Platão, não existem nas mentes) A «ideia» de justiça não é idêntica a nada que seja justo: é algo diferente das coisas particulares, e que estas partilham. Não sendo particular, não existe no mundo dos sentidos e não é efémera e mutável como as coisas dos sentidos: é eternamente ela própria, imutável e indestrutível.

    Platão é assim levado para um mundo supra-sensível, mais real do que o mundo comum dos sentidos, o mundo imutável das ideias, que dá ao mundo dos sentidos todo o pálido reflexo de realidade que lhe possa pertencer. O verdadeiro mundo real, para Platão, é o mundo das ideias; porque seja o que for que tentemos dizer acerca das coisas do mundo dos sentidos, apenas conseguimos dizer que participam de tais e tais ideias, que, portanto, constituem todo o seu carácter. Por esta razão é fácil entrar num misticismo. Podemos esperar, numa iluminação mística, ver as ideias como vemos objectos dos sentidos; e podemos imaginar que as ideias existem no céu. Estes desenvolvimentos místicos são muito naturais, mas a base da teoria encontra-s

  • Particular: o que é dado na sensação é um particular.

  • Universal: um universal o que pode ser partilhado por muitos particulares.

  • Na generalidade, os nomes próprios representam particulares, e os outros substantivos, os adjectivos, as preposições e os verbos representam universais.

    Os pronomes representam particulares, mas são ambíguos: é apenas pelo contexto ou pelas circunstâncias que sabemos que particulares eles representam.

    A palavra «agora» representa um particular, nomeadamente, o momento presente; mas como os pronomes, representa um particular ambíguo, porque o presente está sempre a mudar.

    Nenhuma frase pode ser construída sem pelo menos uma palavra que denote um universal. A maior aproximação poderia ser uma afirmação como «Eu gosto disto». Mas mesmo aqui a palavra «gosto» denota um universal, porque posso gostar de outras coisas, e outras pessoas podem gostar de coisas. Assim, todas as verdades implicam universais, e todo o conhecimento de verdades implica contacto com universais.


    Mesmo entre os filósofos, apenas os universais que designamos por adjectivos ou por substantivos foram reconhecidos como tais, enquanto que os designados por verbos e preposições foram ignorados. Esta omissão teve um grande efeito sobre a filosofia:

  • a maior parte das metafísicas, desde Espinoza, foram largamente determinadas por ela.

  • A forma como isto ocorreu foi a seguinte:

    na generalidade, os adjectivos e os nomes comuns expressam qualidades ou propriedades de coisas isoladas, enquanto as preposições e os verbos tendem a expressar relações entre duas ou mais coisas. Deste modo, a negligência a que foram votadas as preposições e os verbos levou à crença de que cada proposição atribui uma propriedade a uma coisa isolada, em vez de exprimir uma relação entre duas coisas ou mais. Por este motivo, supôs-se que não podem existir entidades como relações entre coisas. Por isso, só pode existir uma coisa no universo, ou, se há muitas coisas, porventura não podem interagir de forma alguma, uma vez que qualquer interacção seria uma relação e as relações são impossíveis. O primeiro destes pontos de vista, defendido por Espinoza e sustentado nos nossos dias por Bradley e muitos outros filósofos, é chamado monismo; o segundo, defendido por Leibniz mas não muito comum hoje em dia, é chamado monadismo, porque cada uma das coisas isoladas é chamada uma mónada. Qualquer uma destas filosofias resultam de uma atenção excessiva a uma espécie de universais, a espécie representada por adjectivos e substantivos em detrimento dos verbos e preposições.

    Prova da existência dos universais:


    Se alguém quisesse negar a existência de universais, verificaríamos que não podemos provar exactamente que existem entidades como as qualidades, isto é, os universais representados por adjectivos e substantivos, mas podemos provar que têm de existir relações, isto é, a espécie de universais representados geralmente por verbos e preposições:

    Se acreditamos que existe o universal brancura, diremos que as coisas são brancas porque têm a qualidade da brancura. Este ponto de vista foi negado por Berkeley e Hume, negando a existência de «ideias abstractas». Quando queremos pensar em brancura, disseram, formamos uma imagem de alguma coisa particular branca, e raciocinamos acerca dessa coisa particular, tomando o cuidado de não deduzir nada acerca dela que não possamos ver que é igualmente verdade de qualquer outra coisa branca.

    Mas surge uma dificuldade assim que nos perguntamos como sabemos que algo é branco: Se desejamos evitar os universais brancura, teremos de escolher uma mancha particular de branco ou algum triângulo particular e dizer que algo é branco se se assemelha correctamente ao particular que escolhemos. Mas então a semelhança exigida tem de ser um universal. Uma vez que há muitas coisas brancas, a semelhança deve existir em muitos pares de coisas brancas particulares; e esta é a característica de um universal. A relação de semelhança, portanto, deve ser um verdadeiro universal.

    Berkeley e Hume não perceberam esta refutação da sua rejeição das «ideias abstractas», porque, como os seus adversários, apenas pensavam em qualidades e ignoraram completamente as relações como universais (este é outro ponto em que os racionalistas parecem ter estado correctos contra os empiristas).

    Análise da questão 1 (acerca da natureza dos universais):


    Objectivo: provar que o seu ser não é meramente mental (entende-se por isto que qualquer que seja o seu ser é independente de serem pensados ou apreendidos por mentes).


    Consideremos uma proposição como «Edimburgo é ao norte de Londres». Temos aqui uma relação entre dois locais e parece claro que a relação subsiste independentemente do nosso conhecimento dela. Quando tomamos conhecimento de que Edimburgo é ao norte de Londres, tomamos conhecimento de algo que tem a ver apenas com Edimburgo e Londres; não causamos a verdade da proposição ao conhecermo-la, pelo contrário, apreendemos meramente um facto que já existia antes de o conhecermos. A parte da superfície da terra onde fica Edimburgo seria a norte da parte onde fica Londres, mesmo se não existisse nenhum ser humano para saber o que é o norte e o sul, e mesmo que não existissem de todo mentes no universo.

    É verdade que nada de mental é pressuposto no facto de Edimburgo ser ao norte de Londres. Mas este facto implica a relação «norte de», que é um universal; e seria impossível para a totalidade do facto não implicar algo mental se a relação «norte de», que é uma parte constituinte do facto, implicasse algo mental. Devemos, por esta razão, admitir que a relação, tal como os termos que relaciona, não depende do pensamento, mas pertence ao mundo independente que o pensamento apreende mas não cria.


    Esta conclusão esbarra na dificuldade de a relação «norte de» não parecer existir no mesmo sentido que Edimburgo e Londres existem. Se perguntarmos «Onde e quando deve esta relação existir?» a resposta deve ser «Em nenhum lado e nunca». Não há lugar ou tempo onde possamos encontrar a relação «norte de». Não existe em Edimburgo tal como não existe em Londres, porque relaciona as duas e é neutral entre elas. Também não podemos dizer que existe num qualquer tempo particular. Ora, tudo o que pode ser apreendido pelos sentidos ou pela introspecção existe nalgum tempo particular. Por isso,

    a relação «norte de» é radicalmente diferente de tais coisas. Não está no espaço nem no tempo, não é material nem mental; contudo é alguma coisa. Os universais não são pensamentos, embora quando são conhecidos sejam os objectos dos pensamentos.

    Coisas existentes:

    coisas que estão no tempo, isto é, quando lhes podemos apontar um dado tempo em que existem (sem excluir a possibilidade da sua existência em todos os tempos). Assim, os pensamentos e os sentimentos, as mentes e os objectos físicos existem.

    Coisas subsistentes:

    os universais subsistem ou têm ser, onde «ser» se opõe a «existência» como sendo intemporal.

    O mundo dos universais, portanto, pode também ser descrito como o mundo do ser. O mundo do ser é imutável, rígido, exacto, encantador para o matemático, o lógico, o construtor de sistemas metafísicos e todos os que amam a perfeição mais do que a vida.

    O mundo da existência é efémero, vago, sem limites definidos, sem qualquer plano ou disposição claro, mas contém todos os pensamentos e sentimentos, todos os dados dos sentidos e todos os objectos físicos, tudo o que pode fazer bem ou mal, tudo o que é importante para o valor da vida e do mundo.

     

    Álvaro Nunes, 2002

     

    © Filosofia e Educação, 2001-2008. Todos os direitos reservados.

    filedu@filedu.com