Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Resumo)
CAPÍTULO 11
SOBRE O CONHECIMENTO INTUITIVO
Impressão comum: «Tudo em que acreditamos deve poder ser provado ou, pelo menos, deve-se poder mostrar que é altamente provável
e uma crença para a qual nenhuma razão pode ser dada é irracional.»
Este ponto de vista é justo. Quase todas as nossas crenças vulgares são
directa ou indirectamente inferidas de outras crenças que dão a razão
delas.
Se procurarmos insistentemente a razão para as nossas
crenças e a razão para a razão, seremos conduzidos a um ponto em que
não podemos encontrar nenhuma razão adicional, isto é, a um princípio
geral ou a um exemplo de um princípio geral que pareça evidente e que
não possa ser deduzido de nada mais evidente.
Na maior parte dos problemas da vida diária somos
conduzidos ao princípio da indução e não é possível regredir para além
dele, isto é, não há raciocínio que partindo de um princípio mais
simples e auto-evidente nos conduza ao princípio da indução. Acontece o
mesmo com os outros princípios lógicos: a sua verdade é evidente e são
empregues na construção de demonstrações, mas eles não podem ser
demonstrados.
Verdades autoevidentes:
1. Os princípios gerais que não podem ser provados.
2. As proposições deduzidas dos princípios gerais são
frequentemente tão evidentes quanto os princípios donde são deduzidas.
Ex: a aritmética pode ser deduzida dos princípios gerais da lógica e as
proposições simples da aritmética são tão auto-evidentes quanto os
princípios da lógica.
3. Parece que existem também alguns princípios éticos auto-evidentes.
Em todos os casos de princípios gerais, os exemplos
particulares que tratam de coisas familiares são mais evidentes que o
princípio geral. Exemplo da rosa: que uma dada rosa não pode ser e não
ser vermelha é mais evidente que a lei da contradição. É por intermédio
de exemplos que geralmente nos tornamos capazes de apreender o
princípio geral.
4. Verdades imediatamente derivadas da sensação (que são designadas por verdades de percepção, enquanto que os juízos que as expressam são os juízos de percepção).
É preciso ter aqui cuidado para apreendermos a natureza exacta das verdades [de percepção] que são auto-evidentes:
os dados dos sentidos actuais não
são verdadeiros nem falsos (exemplo da mancha de cor: pode-se dizer que
existe mas não se pode dizer que é verdadeira ou falsa) e as verdades
auto-evidentes que possamos obter pelos sentidos têm de ser diferentes
dos dados dos sent
a. O que afirma a existência dos
dados dos sentidos sem os analisar (exemplo: «existe uma mancha de
vermelho tal e tal» ou «existe isso», o que consiste num juízo
intuitivo de percepção)
b. O que se origina quando o objecto dos sentidos é
complexo e o sujeitamos a um certo grau de análise (exemplo: se vemos
uma mancha de vermelho redonda emitimos o juízo «esta mancha de
vermelho é redonda» ― o nosso juízo analisa o dado em cor e forma e
recombina-os afirmando que a cor vermelha tem forma redonda; outro
exemplo: «isto está à direita daquilo» ― o dado dos sentidos tem
constituintes que têm uma certa relação e o juízo afirma essa relação)
5. juízos de memória ― depende deles todo o conhecimento do passado
Perigo de confusão quanto à natureza da memória, devido
à memória de um objecto poder ser acompanhada por uma imagem do objecto
e no entanto a imagem não poder ser o que constitui a memória (a imagem
está no presente e o que é lembrado no passado) ― a essência da memória
não é constituída pela imagem, mas por ter imediatamente presente à
mente um objecto que é reconhecido como passado → sem isto não
saberíamos que houve passado, nem seríamos capazes de entender a
palavra «passado».
A memória é digna de confiança na proporção da
vivacidade da experiência e da sua proximidade no tempo. Donde resulta
que a memória tem graus de auto-evidência que correspondem aos seus
graus de credibilidade, atingindo o máximo na nossa memória de eventos
recentes e vívidos.
A questão da memória mostra que a auto-evidência tem
graus, que vão desde a certeza absoluta até uma quase imperceptível
debilidade:
as verdades de percepção e alguns princípios da lógica têm o mais alto grau de auto-evidência;
as verdades da memória imediata têm um grau quase tão alto;
o princípio indutivo tem menos
auto-evidência que alguns outros princípios da lógica, como «o que se
segue de uma premissa verdadeira tem de ser verdadeiro»;
as recordações têm uma auto-evidência que vai diminuindo à medida que se tornam remotas e débeis;
as verdades da lógica e da matemática têm em geral menos auto-evidência à medida que se tornam mais complicadas;
os juízos éticos e estéticos têm alguma auto-evidência, mas não muita.
Os graus de auto-evidência são importantes porque se as
proposições podem ter algum grau de auto-evidência sem serem
verdadeiras, não será necessário abandonar toda a ligação entre
auto-evidência e verdade, mas dizer, onde há conflito, que se retém a
proposição mais auto-evidente e rejeita-se a menos auto-evidente.
É possível que estejam combinadas duas noções na auto-evidência:
1. uma corresponde ao mais alto grau, e é uma garantia infalível da verdade;
2. a outra corresponde a todos os outros graus, não dá uma garantia infalível, mas uma presunção maior ou menor;
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