Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Resumo)



CAPÍTULO 10

SOBRE O NOSSO CONHECIMENTO DOS UNIVERSAIS

No que respeita ao conhecimento, os universais podem ser divididos em

1. os que são conhecidos por contacto

2. os que são conhecidos apenas por descrição

3. os que não são conhecidos nem por contacto nem por descrição

Universais conhecidos por contacto:

1. qualidades sensíveis ― qualidades que são exemplificadas nos dados dos sentidos (branco, vermelho, preto, doce, amargo, ruidoso, duro), obtidos por abstracção a partir de dados dos sentidos semelhantes

2. relações

2.1 relações espaciais ― relação entre as partes de um dado dos sentidos singular e complexo (exemplo da página: certas partes estão à esquerda de outras e por abstracção obtém-se a relação «estar à esquerda de»)

2.2 relações temporais ― relação de antes e depois no tempo (exemplo do carrilhão)

2.3 relações de semelhança [entre particulares ou qualidades apreendidas nos dados dos sentidos](exemplo dos matizes de verde e vermelho)

2.4 relações entre universais (exemplo da semelhança entre dois matizes de verde que é maior que a semelhança entre um matiz de verde e um matiz de vermelho: relação 'maior que' entre duas relações de semelhança).

PROBLEMA DO CONHECIMENTO A PRIORI(cujo tratamento começou no capítulo 8):


A proposição «dois e dois são quatro» afirma uma relação entre o universal «dois» e o universal «quatro». Isto sugere uma proposição que justifica o conhecimento a priori: todo o conhecimento a priori respeita exclusivamente a relações entre universais.

Análise do aparente contra-exemplo do caso em que uma proposição a priori parece afirmar que todos os particulares de uma classe pertencem a uma outra classe:

A afirmação «dois e dois são quatro» lida apenas com universais e pode ser conhecida por quem tenha contacto com os universais em questão e perceba a relação que a proposição estabelece entre eles. Temos às vezes o poder de perceber estas relações entre universais e de conhecer proposições gerais a priori como as da aritmética e da lógica.

No entanto, é um erro pensar que este conhecimento a priori antecipa e controla a experiência: nenhum facto acerca de algo de que podemos ter experiência pode ser conhecido independentemente da experiência.


A comparação entrimento a priori. A diferença entre a generalização empírica e a proposição a priori está na natureza da prova que para ela existe. A prova da generalização empírica consiste nos exemplos particulares; na proposição a priori está na ligação entre universais.


Dois pontos opostos acerca das proposições gerais a priori:

1. se se conhecem muitos exemplos particulares, pode-se chegar à proposição geral primeiro por indução e só depois perceber a conexão dos universais.

2. podemos conhecer uma proposição geral sem conhecer um único exemplo.

A possibilidade de conhecermos proposições deste segundo tipo é muitas vezes negada porque não se percebe que requer apenas um conhecimento das relações entre universais e não qualquer conhecimento de exemplos de universais em questão. Mas este conhecimento é vital para uma grande parte daquilo que geralmente se admite conhecer, p. ex., os objectos físicos, outras mentes e tudo de que não conhecemos nenhum exemplo por contacto.


Fontes do conhecimento:

    1. conhecimento de coisas


    • contacto (imediato)

      • particulares (dados dos sentidos e, talvez, nós próprios)

      • universais (qualidades sensíveis, relações de espaço e tempo, semelhança e alguns universais lógicos abstractos)

    • descrição (derivado)

      • implica sempre contacto com algo e conhecimento de verdades


    2. conhecimento de verdades (conhecimento proposicional ou teórico)


    • intuitivo (imediato)

      • verdades auto-evidentes (proposições que afirmam o que é dado nos sentidos, certos princípios aritméticos e lógicos abstractos, algumas proposições éticas)

    • derivado

      • tudo o que podemos deduzir de verdades auto-evidentes por intermédio de princípios de dedução auto-evidentes.


    Todo o conhecimento de verdades depende do conhecimento intuitivo.

 

Álvaro Nunes, 2002

 

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