Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia (Resumo)



CAPÍTULO 1

APARÊNCIA E REALIDADE

Problema inicial: Existe algum conhecimento tão certo que não se possa dele duvidar?


(1.ª Definição de filosofia: "A filosofia é a tentativa de responder a este tipo de questões últimas")


Análise a partir da experiência imediata:

1. Em certo sentido, o conhecimento é derivado das experiências imediatas;

2. É provável que qualquer afirmação acerca do que conhecemos pelas experiências imediatas esteja errada.

Exemplos:

  • estou sentado numa cadeira, a uma mesa em que vejo folhas manuscritas;

  • pela janela vejo edifícios, nuvens e o sol;

  • acredito que

  • o sol está a cerca de noventa e três milhões de milhas da terra

  • que é um globo quente muitas vezes maior do que a Terra

  • que nasce todas as manhãs e continuará a fazê-lo

  • se outra pessoal normal vier ao meu quarto verá as mesmas cadeiras, mesas, livros e papéis que eu

  • que a mesa que vejo é a mesma que sinto pressionar o braço

Pode-se razoavelmente duvidar de tudo isto.


Análise da mesa:

A mesa é

  • para a vista: oblonga, castanha e brilhante

  • para o tacto: plana, fria e dura e emite um som quando se lhe bate

Dificuldades reveladas pela análise da mesa:

1. As partes que reflectem a luz parecem mais brilhantes do que as outras e algumas parecem brancas devido à luz reflectida;

2. Se me movo, as partes que reflectem a luz são diferentes e a distribuição aparente das cores muda;

Consequência: se estiverem várias pessoas a olhar para a mesma mesa na mesma altura, não haverá duas que vejam exactamente a mesma distribuição de cores, porque não há duas que possam vê-la exactamente do mesmo ponto de vista, e qualquer mudança no ponto de vista provoca uma mudança na forma como a luz é reflectida.

Donde:

1. Não existe nenhuma cor que apareça preeminentemente como sendo a cor da mesa ― de diferentes pontos de vista parece de cores diferentes e não há razão para preferir umas e não outras;

2. A cor não é inerente à mesa, mas depende da mesa, do observador e da formaizer a espécie de cor que ela parecerá ter para um observador normal, de um ponto de vista comum sob condições de luz usuais. Mas como as outras cores que aparecem sob outras condições têm igualmente direito a ser consideradas reais e, portanto, para evitar favoritismos somos compelidos a negar que, em si mesma, a mesa tenha uma qualquer cor particular.

Acontece o mesmo com a textura, a forma e quando usamos o sentido do tacto.


Conclusão: A mesa real, se existe, não é a de que temos experiência imediatamente pelos sentidos. Se existe, não é objecto de conhecimento imediato mas inferida a partir desse conhecimento. Surgem assim duas questões:

1. Existe uma mesa real?

2. O que é?

Termos para ajudar a pensar estas questões:

dados dos sentidos ― coisas imediatamente conhecidas na sensação (cores, sons, cheiros)

sensação ― experiência de ter imediatamente consciência destas coisas

objecto físico ― aquilo que as coisas realmente são

matéria ― colecção de todos os objectos físicos

As duas questões acima podem ser apresentadas como segue:

1. Existe matéria?

2. Se sim, qual a sua natureza?

Berkeley, o filósofo que primeiro apresentou as razões para olhar os objectos imediatos dos sentidos como não tendo existência independente de nós, procura provar que

  • a matéria não existe

  • o mundo consiste apenas em mentes e nas suas ideias

  • Berkeley mostrou que:

  • a existência da matéria pode ser negada sem absurdo

  • se há coisas que existem independentemente de nós, não podem ser os objectos imediatos das sensações

  • Normalmente entendemos por matéria

    1. algo oposto à mente, que ocupa espaço e não é capaz de pensamento ou consciência

    (É neste sentido que Berkeley nega a existência da matéria. Berkeley não nega que os dados dos sentidos sejam sinais da existência de algo independente de nós, mas nega que este algo seja não mental, que não seja nem a mente nem as ideias sustentadas por alguma mente.)

    2. algo que continua a existir quando saímos do quarto ou fechamos os olhos

    Berkeley pensa que este algo não pode ter uma natureza radicalmente diferente do que vemos e que não pode ser independente de toda a visão, embora deva ser independente da nossa visão, pelo que vê a mesa 'real' como uma ideia na mente de Deus.)

    Outros filósofos depois de Berkeley também sustentaram que, embora a mesa não dependa para a sua existência de ser vista por mim, depende de ser apreendida na sensação por alguma mente (Deus ou a mente colectiva do universo). Defendem isto (como Berkeley) porque pensam não pode existir nada de real (ou nada pode ser conhecido como tal) excepto as mentes e os seus pensamentos e sentimentos.


    Argumento com que sustentam esta posição:

    O que quer que possa ser pensado é uma ideia na mente da pessoa que a pensa;

    Portanto, nada pode ser pensado excepto ideias em mentes;

    Portanto, qualquer outra coisa é inconcebível, e o que é inconcebível não pode existir.

    Russell considera este argumento falacioso.


    IDEALISTAS:

  • filósofos que sustentam que não existe nada real excepto a mente e as suas ideias.

  • Mas embora neguem a existência da matéria, estes filósofos admitem que há uma realidade. À questão

    1. Existe uma mesa real?

    Berkeley e Leibniz respondem afirmativamente; à questão

    2. que espécie de objecto pode ser?

    Berkeley diz que é uma ideia na mente de Deus e Leibniz diz que é uma colónia de almas (colecção de mentes mais ou menos rudimentares)


    Conclusão: Quase todos os filósofos estão de acordo em que existe realidade. Concordam que, por muito que os nossos dados dos sentidos possam depender de nós, todavia, a sua ocorrência é um sinal de algo que existe independentemente de nós, algo que pode ser diferente dos dados dos sentidos e no entanto, sua causa. A ideia de que existe uma realidade é importante.

     

    Álvaro Nunes, 2002

     

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