«Toda a gente faz o mesmo.»   Parte I


Há algum tempo atrás assisti a uma conversa entre professoras, em que uma delas pedia às outras que requeressem às editoras os manuais adoptados na escola e que o filho iria usar este ano lectivo. O facto nada tem de invulgar. Ocorrem episódios semelhantes todos os anos por todas as escolas. Mas desta vez, como se tratava de uma pessoa com quem tenho alguma familiaridade, perguntei se achava o que estava a fazer correcto. As respostas, ou melhor, as justificações, que obtive não podiam ser mais interessantes. Houve, no entanto, uma que me chamou a atenção. Foi a de que "Toda a gente faz o mesmo."

Antigamente os esquimós colocavam os seus anciãos na rua durante a noite e no Inverno quando estavam às portas da morte. Se um de nós, ao observar esta prática, perguntasse "Acha isto correcto?" e o esquimó respondesse "Toda a gente faz o mesmo", consideraríamos essa resposta satisfatória? Talvez a primeira coisa que sentíssemos fosse uma certa estranheza derivada de nos parecer que a resposta não respondia à pergunta. A pergunta não era acerca do número de pessoas que pratica a acção, mas a sua correcção. A resposta é, portanto, irrelevante para a questão.

Podemos explicar esta irrelevância com o facto de que o que foi pedido ao esquimó foi uma resposta de carácter normativo e não descritivo. Quando dizemos que "toda a gente faz o mesmo" estamos a descrever uma resposta comportamental a uma dada situação. Mas a resposta não devia descrever um estado de coisas (como as pessoas se comportam na situação X), mas o que devem fazer (como devem comportar-se na situação X). O facto de estarmos perante uma acção que não se enquadra nos padrões de comportamento da nossa sociedade, tornou evidente a irrelevância da resposta.

Esta situação é em tudo idêntica àquela em que a minha pergunta foi feita. Por isso, responder que "toda a gente faz o mesmo" à minha pergunta, embora possa descrever adequadamente um comportamento comum, é tão irrelevante quanto a resposta do esquimó. Tal como a pergunta feita ao esquimó, a minha exigia uma resposta normativa e não descritiva. O que perguntava era como se deve proceder e não como as pessoas procedem naquela situação. Por esse motivo, apesar da profusão de respostas, a minha pergunta não teve resposta.

Mas esta é uma análise ainda superficial de "Toda a gente faz o mesmo." A afirmação pode ser também entendida como normativa. É difícil saber se é isso que as pessoas querem dizer ou se têm consciência destas pretensões normativas, mas não há dúvida de que ela pode ter também este significado. Assim entendida, "Toda a gente faz o mesmo." encerra o princípio ético segundo o qual é correcto fazer algo desde que isso o de vista, o esquimó ao responder que "toda a gente faz o mesmo" não está apenas a descrever um comportamento comum, está também a justificar esse comportamento com a norma moral de que é correcto fazer o que toda a gente faz. No entanto continuamos a sentir que há algo de profundamente errado com a sua conduta. Porquê? Julgo que a razão está simplesmente em que, apesar da sua suposta justificação moral, continuamos a considerá-la errada. Não vou tentar justificar o que acabei de dizer (isso implicaria um texto e uma investigação completamente diferente). Vou assumir que é errada e basear essa minha posição no facto de ser esse o sentimento dominante perante aquela acção.

É preciso notar que, ao fazê-lo não estou a proceder como aqueles que tomam "Toda a gente faz o mesmo." como um princípio que permite determinar se uma acção é correcta ou errada. Não estou a dizer que é o sentimento geral que permite determinar se uma acção é boa ou má e, por conseguinte, também não estou a afirmar que a acção é má porque o sentimento geral é de que é má. Estou apenas a apoiar-me nesse sentimento para justificar a minha posição.

Posto isto, vejamos que consequências tem para o princípio "toda a gente faz o mesmo" o facto de haver acções que todos praticam que são más. É fácil ver que isto conduz à conclusão de que o princípio é falso. Se fosse verdadeiro, isto é, se fosse o facto de toda a gente proceder de dada maneira que fizesse com que fosse correcto proceder dessa maneira, não poderia haver casos em que toda a gente procedesse dessa maneira e essa forma de proceder fosse errada. Uma vez que há, o princípio é falso.

Isto deita alguma luz sobre a situação que estamos a analisar. Se o princípio "toda a gente faz o mesmo" é falso, ele não pode fornecer uma justificação adequada a nenhuma conduta e, portanto, também não o pode à prática de requisitar às editoras manuais para uso dos filhos dos professores.

Uma vez que este princípio é falso, como justificar a sua larga aceitação? Uma resposta a esta questão exigiria um trabalho de campo que, uma vez mais, está fora do âmbito deste artigo. Podemos, no entanto, colocar a hipótese de que a sua aceitação deriva do facto de fornecer um processo fácil, cómodo e em larga medida fiável de tomar decisões. É que o princípio, se não é infalível, isto é, se não nos garante a correcção das nossas acções, garante-nos em princípio a aceitação da sociedade. Para a maior parte das pessoas, isto é tudo o que precisam de saber em matéria de moral.

 

Álvaro Nunes, 2001

 

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