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A Companion to Ethics de Peter Singer (ed.)
A discussão pública que antecedeu a guerra do Iraque revelou, uma vez mais, a ignorância dos opinion makers portugueses sobre ética da guerra e sobre ética em geral. Durante algumas semanas, o país viu e ouviu os defensores e os opositores da guerra esgrimir com grande entusiasmo argumentos (muitas vezes, maus argumentos) acerca da legitimidade da intervenção americana, sem nunca se pronunciarem sobre as condições que a podem ou não moralmente justificar e que, naturalmente, subjazem a todo o debate deste tipo. Sendo a ética uma das áreas fundamentais da filosofia e havendo uma disciplina de Introdução à Filosofia obrigatória no Ensino Secundário, isto pode parecer surpreendente. Contudo, há uma boa razão para que não seja: os programas de Introdução à Filosofia têm tradicionalmente tratado a ética de modo muito deficiente. Embora, a situação tenha melhorado um pouco nos últimos tempos, um aluno quando acaba o Ensino Secundário pouco ou nada aprendeu sobre ética, a não ser, talvez, que, pelo menos tal como é tratada na Filosofia, não tem qualquer utilidade e deve ser evitada. Isto explica a sua ausência do debate público, mesmo quando os temas são de natureza eminentemente ética. Tendo em conta o que no ensino da filosofia em Portugal passa por ética, é recomendável e saudável que assim seja. Como também já aconteceu noutras ocasiões em que na sociedade portuguesa se discutiram problemas com uma clara componente ética, os filósofos, uma vez mais, também estiveram ausentes do debate. Sendo a justificação da guerra um problema ético, seria de esperar que tivessem uma palavra a dizer. Contudo, se exceptuarmos a presença (mais como político do que como filósofo) de Manuel Maria Carrilho num debate televisivo, o resto da comunidade filosófica portuguesa agiu como se não se tratasse de um problema filosófico genuíno. Como se explica, então, esta quase vergonhosa ausência dos filósofos do debate público? Julgo que existem várias razões. Antes de mais, os filósofos portugueses vêem a sua actividade essencialmente como uma actividade académica. Se fazem investigação e se têm algo a dizer sobre aquilo que investigam ― por relevante que seja para o resto da comunidade ―, isso fica para os seus pares. Este é um péssimo hábito que, com frequência, serve mais para ocultar a ausência de trabalho ou a sua irrelevância do que, como se poderia supor, para manter padrões elevados de investigação e discussão filosóficas. Uma outra razão é o facto de o ensino da ética nas universidades portuguesas ser, em geral, sso é feito sem caracterizar os diferentes tipos de teorias éticas, sem enquadrar essas teorias nas grandes correntes da ética e sem pensar criticamente sobre elas. Tentar pensar e ensinar a pensar os problemas éticos contemporâneos à luz das teorias estudadas está igualmente fora de questão. Em vez disso, os estudantes são incentivados a concentrarem-se, como se fossem verdadeiros eruditos ou historiadores de Filosofia, na análise pormenorizada das teorias dos autores que estudam, na integração da obra desses autores no seu tempo, na distinção dos diferentes significados do conceito A ou B, pelo autor X na obra Z, e a prepararem-se para repetir, usando ao máximo o jargão técnico que adquiriram, o que aprenderam nas provas que efectuarem. Mesmo que fiquem a saber as teorias que estudaram, o que nem sempre é certo, os alunos ficam sem saber como usar essas teorias para pensar os problemas actuais ou ficam a pensar que essas teorias estão historicamente datadas e não podem ser usadas para pensar os problemas éticos actuais, ou, o que é pior ainda, ficam a pensar que fazer investigação em ética consiste na análise minuciosa e na hermenêutica dos textos sobre ética dos grandes filósofos. Em consequência, quando participam em debates públicos na qualidade de filósofos ― ou quando, já licenciados, ingressam no ensino ―, a sua intervenção oscila entre a banalidade e a análise vaga, passando por distinções subtilmente inúteis e despropositadas. Não é, portanto, de admirar que os filósofos não participem em debates sobre temas que são eminentemente filosóficos: ninguém os quer ouvir porque é convicção geral que nada de interessante têm a dizer. E o pior é que essa convicção é frequentemente justificada. Este estado de coisas deve-se em grande parte ao facto da tradição filosófica francesa ser dominante nas universidades portuguesas. Tem sido essa tradição que tem fornecido o modelo de trabalho à maioria dos filósofos portugueses e se, estranhamente, esse modelo tem permitido aos filósofos franceses intervir com frequência na vida pública do seu país, o mesmo não se passa cá. Há, no entanto, uma outra tradição filosófica, mais próxima da inaugurada pelos gregos, em que a investigação em ética está viva e em que os filósofos estudam problemas actuais de uma forma que interessa mesmo àqueles que pertencem a outras áreas de investigação ou, como acontece com o grande público, àqueles que normalmente não se interessam pelo que os filósofos fazem. Nesta tradição, as grandes teorias éticas do passado não são desprezadas, nem tratadas como curiosidades históricas. Pelo contrário, são ensinadas e estudadas como teorias que podem fornecer solução para os problemas éticos actuais. A Companion to Ethics da Blackwell Publishers, organizado pelo conhecido filósofo australiano Peter Singer, é talvez o melhor exemplo desta forma de conceber a ética. Não se trata de um livro recente (foi publicado pela primeira vez em 1991, embora tenha vindo a ter sucessivas edições), e alguns dos seus textos estão já um tanto datados, mas, apesar disso, constitui ainda a melhor introdução geral à ética disponível. O seu objectivo não é discutir exaustivamente todos os temas que aborda, mas fornecer uma introdução acessível àqueles que se estão a iniciar no estudo da ética, ou que, por uma razão ou outra, precisam ou querem conhecer o que os filósofos desse campo pensam sobre os problemas que tratam. Pode, por isso, tanto ser vista como uma obra a ler de seguida (embora as suas 565 páginas recomendem outra abordagem), ou como uma obra da qual se vão lendo artigos à medida da necessidade (ou da curiosidade), ou ainda como uma obra de referência e de consulta. Os seus quarenta e sete artigos, que em média têm cerca de dez páginas, são escritos por alguns dos maiores especialistas mundiais (por exemplo, Mary Midgley, Will Kimlicka, Jonathan Dancy, Philip Pettit, Mary Anne Warren, Hugh LaFollette, James Rachels, R. M. Hare, entre outros) e estão, mesmo para o leigo, numa linguagem clara e acessível. A obra está dividida em sete partes. A Part I trata das raízes da ética e tem artigos como 'The origin of ethics' e 'Ancient ethics'; a Part II é dedicada às grandes tradições éticas e nela encontramos artigos como 'Buddhist ethics', 'Christian ethics' e 'Islamic ethics'; a Part III faz a história da ética ocidental e contém artigos como 'Ethics in ancient Greece' ou 'Modern moral philosophy'. É a partir da Part IV que encontramos os artigos mais interessantes. Com efeito, esta parte é sobre ética normativa e tem o sugestivo título de 'How ought I to live?' Nela encontramos artigos como 'Kantian ethics', 'The social contract tradition', 'Consequentialism', 'Virtue theory' e 'Rights'. A Part V é dedicada ao campo da ética mais estudado nas últimas duas ou três dezenas de anos, a ética aplicada. É aí que se encontram, entre outros, artigos como 'World poverty', 'Environmental ethics', 'Euthanasia', 'Abortion', 'Sex', 'Animals', 'Crime and punishment' e 'War and Peace'. A Part VI trata de problemas de metaética e tem artigos como 'Realism', 'Intuitionism', 'Naturalism', 'Subjectivism' e 'Relativism'. Por fim, a Part VII e última, com o título 'Challenge and Critique', é constituída por um conjunto de artigos que criticam algumas das perspectivas éticas que foram anteriormente apresentadas. Nela encontramos, por exemplo, artigos com títulos como 'The ideia of a female ethic', 'The significance of evolution', 'Marx against morality' ou 'How could ethics dependo on religion?'. No seu conjunto, A Companion to Ethics constitui uma excelente introdução à ética. Os seus artigos cobrem praticamente todos os temas importantes da ética actual. É, por isso, uma obra absolutamente necessária a todos aqueles que queiram conhecer o que de melhor se faz presentemente no domínio da ética e a sua tradução para português teria certamente uma influência enorme no ensino da ética em Portugal. Para além de que tornaria a ausência da ética e dos filósofos do debate público sobre questões éticas indesculpável.
Álvaro Nunes, 2003 |
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