Home · Educação · Ensino da Filosofia · Legislação · Pensamento Crítico · Recensões · Textos Filosóficos
|
Nota sobre os exames de Filosofia do 12.º ano Quem, como eu, lecciona o 12.º ano de Filosofia desde há cerca de 5 ou 6 anos, isto é, desde a sua instituição nos moldes agora existentes, sabe que os exames nacionais da disciplina passaram por vários formatos antes do actual. Naturalmente, o primeiro formato era de longe o menos conseguido e por várias razões. A primeira prende-se com o primeiro grupo. Veja-se, como exemplo, o que aparece na Informação N.º 216/95 do DES a este respeito (Esta mesma indicação, apenas com a alteração de duas para uma questão, vigorou enquanto a prova teve mais ou menos esta estrutura)
Ainda hoje tenho dificuldade em compreender como é que o Ministério da Educação pôde permitir que constasse de um exame nacional de Filosofia, autores que, obrigatoriamente, não faziam parte do programa da disciplina. Examinar alunos sobre autores/temas não leccionados e de que, na esmagadora maioria dos casos, eles não tinham qualquer conhecimento, está para além da minha capacidade de compreensão. Mas isto não é tudo. Igualmente grave foi o facto de, com alguma frequência, o exame não respeitar os objectivos estabelecidos pelo próprio Ministério, nas referidas Informações para este grupo. Assim
Mas era nos grupos subsequentes que a ambiguidade e a vagueza roçava o absurdo. Isto é uma consequência do próprio programa que, com 22 obras possíveis, obrigava à elaboração de perguntas verdadeiramente fantásticas. Eis alguns exemplos retirados da prova modelo de 1995: Grupo II
Grupo III
Felizmente, os autores das provas de exame conseguiram, com o tempo, alterar esta situação e eliminar muita da falta de rigor existente na formulação das perguntas. Devemos reconhecer o esforço feito, tendo consciência de que, com as limitações impostas pela estrutura do programa, não é possível fazer muito melhor. A eliminação do primeiro grupo, nos moldes em que estava formulado, só pode ser louvada. A transformação do segundo grupo, que passou a constar de um texto ― necessariamente de obras do programa ― e três questões (assumindo algo dos objectivos que eram anteriormente do primeiro), deu-lhe maior objectividade na formulação das questões e, sobretudo, uma maior adequação aos objectivos constantes das Informações do GAVE (contudo, é de lamentar que se tenha deixado cair os objectivos do anterior primeiro grupo, objectivos que se poderiam manter pelo menos para uma das questões). O anterior terceiro grupo e actual segundo, tornou-se mais objectivo, passando a haver um tema por obra, em vez da formulação exemplificada acima ou de uma intermédia em que se sugeriam 3 temas para escolher um. Parece-me, no entanto, possível ser ainda menos vago. Para isso, é necessário formular com rigor as questões sobre cada umas das obras que serão objecto de exame. Não há dúvida de que o tema do Górgias ― 'Poder e saber' (prova modelo deste ano) ― representa um passo em frente relativamente ao que se faz no passado; mas também não há dúvida de que é possível ir ainda mais longe e elaborar perguntas menos vagas, menos ambíguas e, portanto, mais precisas e claras. O calcanhar de Aquiles das provas de exame do 12.º ano tal como existem agora é a terceira questão do primeiro grupo. É fácil ver porquê se atentarmos na sua formulação (exemplos retirados do Exame de 2.ª fase de 1999 e da prova modelo deste ano:
ou
Há vários motivos para esta formulação da questão ser insatisfatória. Um primeiro motivo óbvio é o extracto poder ser razoavelmente irrelevante no/para o contexto da obra. Ao contrário do que se possa pensar, alguns dos extractos são de facto irrelevantes. A consequência disto é que o aluno fica sem saber o que responder (Veja-se por exemplo o extracto do Górgias na prova modelo de 1999). Este é certamente o motivo de menor importância, uma vez que pode ser rapidamente ultrapassado por intermédio de um maior cuidado na selecção dos textos. O principal motivo, e aquele que me origina maior desconforto, está no facto de ser impossível, perante uma questão deste tipo, saber, com o rigor necessário para elaborar uma resposta num exame, quais os pontos a tratar na resposta. Por exemplo, é pelo menos possível pensar dois tipos de resposta. Uma minimalista, chamemo-lhe assim, e uma maximalista. A primeira limitar-se-ia a dar um tratamento mais alargado aos aspectos da obra focados pelo texto. A outra procuraria ligar esses aspectos com outros presentes na obra, mostrando como são precedentes ou dependentes desses aspectos, como se articulam na teoria e argumentação do autor, dando origem a uma espécie de resumo. As competências e tarefas a realizar indicadas pelas Informações do GAVE não nos ajudam a determinar o tipo de resposta que, em cada exame, é pretendido. Veja-se o que é dito sobre isso na Informação N.º 16/99, isto é, as informações referentes aos exames agora a realizar. Competências: Comentário de texto: Compreensão da função do excerto no contexto geral da obra. Por seu lado, na coluna das tarefas a realizar consta o seguinte: Construção de um texto de síntese que
O Ministério da Educação faz acompanhar cada prova modelo e exame por aquilo a que chama 'Cotações, critérios e sugestões de classificação' que fornecem para cada questão sugestões de resposta. Ora, um exame dessas sugestões para diferentes provas revela que, sem que se perceba porquê, nalguns casos se optou pela versão minimalista e noutros pela maximalista. Pode-se argumentar que as referidas sugestões são apenas isso mesmo, e que cada corrector tem liberdade para aceitar ou não a resposta do aluno, vá ela ou não ao encontro das sugestões. Mas como o programa consiste em 22 obras distribuídas por 4 épocas (Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea) das quais têm de ser leccionadas 3, uma de cada época, teoricamente isto significa que é possível num Agrupamento de Escolas haver tantos 'programas de 3 obras' diferentes quantos os professores que nesse Agrupamento leccionam o 12.º ano; e na prática isto torna muito difícil encontrar dois professores que tenham leccionado exactamente as mesmas obras (isto é, que conheçam todas as obras cujas respostas vão corrigir). Assim, frequentemente os professores têm apenas estas sugestões para se guiarem na correcção respostas. O resultado último disto é que, por motivos que não lhe podem de todo em todo ser imputados, os alunos são frequentemente prejudicados (e a questão vale 70 pontos em 200). Para tal basta que tenham dado respostas minimalistas e que as sugestões sejam maximalistas ou vice-versa. Por outro lado, tal prática ― e a própria formulação da questão ― serve uma vez mais para justificar as acusações de 'conversa vaga' frequentemente feitas pelos alunos à disciplina e à filosofia. É certo que há alguma injustiça nisto, mais que não seja pelo facto de confundirem o ensino português da filosofia com o que é efectivamente a investigação filosófica, mas a verdade é que esse é o único modelo com base no qual os nossos alunos podem julgar. Talvez devêssemos antes concluir pela necessidade de repensarmos a sério os programas das disciplinas (Introdução à Filosofia e Filosofia) e talvez essa fosse a única conclusão que deveríamos retirar da forma como os alunos recebem o ensino da Filosofia. Na impossibilidade actual ― e na expectativa ― de que isso aconteça, seria importante que se fizesse mais um esforço para eliminar a ambiguidade dos exames nacionais de Filosofia.
Álvaro Nunes, 2002 |
Home · Educação · Ensino da Filosofia · Legislação · Pensamento Crítico · Recensões · Textos Filosóficos
© Filosofia e Educação, 2001-2008. Todos os direitos reservados.