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Um Mundo Infestado de Demónios de Carl Sagan
A publicação deste livro, cuja 2.ª edição é de 1998, passou despercebida. Isto é surpreendente. Ou talvez não! Trata-se de mais um livro de Carl Sagan, o mais conhecido divulgador do conhecimento científico entre nós. É fácil e quase natural que o público português tenha visto esta como muitas outras obras de Sagan. Se o fez, enganou-se! Bom, pelo menos enganou-se em parte. O conhecimento científico é uma presença constante em toda obra, mas sua intenção principal é analisar com clareza e rigor as diversas formas de pseudociência que hoje têm uma grande implantação não só na mentalidade comum, mas também em muitos departamentos das universidades americanas. Quando Popper e os filósofos do Círculo de Viena, nos anos trinta do século passado, procuravam estabelecer um critério de demarcação entre ciência e não ciência, a sua intenção principal era distinguir as teorias científicas das metafísicas. Estas teorias, pelo menos como são produzidas pelos filósofos, são complexas, difíceis e de limitado ou nenhum alcance popular. Não é, por isso, por elas que Sagan se interessa nesta obra, mas sim pela ovnilogia, a parapsicologia, a astrologia, os raptos por alienígenas, o criacionismo, as curas psicológicas e muitas outras formas de pseudociência com que pessoas sinceras, mas também muitos charlatães oportunistas, com a colaboração dos poderes instituídos e da comunicação social, têm vindo a impedir o desenvolvimento do pensamento racional e crítico e a diminuir o grau de instrução dos americanos. Por esse motivo, a obra não é apenas uma crítica da pseudociência. É também uma defesa inteligente e profunda de uma educação que desenvolva o cepticismo, a dúvida, a busca do conhecimento, que constituem, desde os gregos, as características principais do pensamento racional. É também, por isso, uma obra com um enorme alcance ético e político. Mostra-nos como o desenvolvimento de uma democracia equilibrada e ao serviço dos cidadãos e de um mundo em que se utilize equilibradamente os recursos naturais depende de cidadãos esclarecidos e instruídos, o que por sua vez, depende do pensamento racional e crítico; mostra-nos também como a riqueza ― civilizacional, cultural, económica das nações ― depende de uma educação e instrução que desenvolva nos seres humanos o pensamento crítico. Se se pode medir a importância e alcance de uma obra pela clareza, rigor de análise, inteligência; se se pode medir essa importância pela novidade das ideias que veicula e que origina, esta é certamente uma obra de primeira grandeza, uma obra fundament motivos diferentes dos americanos, a escola enfrenta problemas muito idênticos, esta obra verdadeiramente de leitura fundamental para todos os educadores e professores tenha passado despercebida. Não resisti a disponibilizar aos leitores destas páginas um dos capítulos da obra. Trata-se do capítulo 19, Não há perguntas Estúpidas, em que Sagan aborda as dificuldades relacionadas com a educação científica nos Estados Unidos. Pelo facto peço desculpa à Gradiva. Julgo que a meu favor concorrem duas coisas: 1) a consciência, que certamente partilho com os editores da Gradiva, da necessidade da divulgação da mentalidade crítica no nosso país; 2) a certeza de que desta forma, estou a contribuir, humildemente, para o sucesso das suas iniciativas editoriais.
Álvaro Nunes, 2001 |
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