A religião e o sentido da existência


O problema do sentido da existência

Quem é que, num momento ou noutro, ao olhar um céu nocturno, ao contemplar uma flor ou ao reflectir sobre si próprio e os outros seres humanos, não se interrogou já acerca da razão de ser disto tudo ou não se perguntou por que razão está aqui e como deve viver para que a sua vida tenha sentido? Estas são questões que têm intrigado os homens desde tempos imemoriais e são certamente algumas das perguntas mais importantes que o ser humano pode colocar sobre si próprio. Há mesmo quem, como Albert Camus, vá ao ponto de afirmar que estas são as únicas questões verdadeiramente importantes:

Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. (...)

Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos ― das interrogações.

Albert Camus, O Mito de Sísifo, pp. 13-14

Parte deste interesse pela questão do sentido da vida parece ser intelectual e resultar da curiosidade própria do ser humano, do seu desejo natural de saber, como dizia Aristóteles. Somos seres inteligentes num universo que nos deixa constantemente perplexos e no qual cada nova descoberta, ao mesmo tempo que sacia a nossa curiosidade, aumenta o nosso deslumbramento. É natural, portanto, que queiramos saber o que é o universo e que papel — se é que algum — nos está nele reservado.

Mas uma parte substancial do interesse resulta também da sua grande importância para a forma como vivemos a nossa vida. Teriam Hitler ou Estaline mandado matar milhões de pessoas se soubessem que Deus tem um propósito para nós que requer um comportamento moral exemplar? E teria S. Francisco Xavier empreendido a evangelização do Oriente se soubesse que Deus não existe ou, se existe, não tem qualquer propósito para o universo e para homem? É difícil imaginar que a resposta a estas questões fosse em ambos os casos afirmativa. Por conseguinte, a maneira como cada um, de forma mais ou menos consciente, responde a esta questão determina o modo como encara a vida e influencia as decisões que toma.

E, no entanto, apesar deste grande interesse, a questão é tudo menos clara. Quando se pergunta qual o sentido da existência, o que se quer exactamente dizer com isso? O que significa a expressão «sentido da existência»?[1]

Algumas escolas filosóficas recusam-se a aceitar que se possa dizer que a existência tem sentido. É o caso do positivismo lógico[2] e da escola da linguagem comum[3], que se desenvolveram na primeira metade do século XX em Viena e Oxford, respectivamente. Do ponto de vista dessas escolas, apenas as palavras e as frases têm sentido. Como a vida não é nem uma coisa nem outra, ela não pode, segundo elas, ter qualquer sentido e, portanto, dizer que a vida tem sentido é incoerente. Estas escolas, claro, entendem a palavra «sentido» no sentido de «significado linguístico», como quando perguntamos qual o sentido de uma frase ou dizemos que uma frase não tem sentido. Num caso estamos a perguntar qual o significado da frase e no outro a afirmar que ela não tem significado. Se entendermos que a palavra «sentido» quer dizer isto, então a vida, como é óbvio, não tem qualquer significado e estas escolas filosóficas têm toda a razão ao recusarem dizer que a vida tem sentido. No entanto, a palavra sentido não tem apenas o significado de «significado linguístico». Usemos um exemplo para tornar claro este ponto.

No livro As Sereias de Titã, Kurt Vonnegut, um escritor americano de ficção científica, narra como a história humana foi manipulada de modo a tornar os seres humanos capazes de fabricar uma pequena peça de metal para uma nave espacial que se dirige do planeta Tralfamadore, na Pequena Nuvem de Magalhães, para uma galáxia distante, com a missão de entregar uma mensagem de saudações, e que se avariou ao passar pelo Sistema Solar.

Se, tendo a história de Vonnegut por referência, perguntarmos qual o sentido da vida humana, a resposta terá forçosamente de ser «fabricar uma peça para permitir entregar uma mensagem numa galáxia distante». Esta resposta sugere que a palavra «sentido», além de ter o significado que acabámos de ver, também pode, pelo menos em certos contextos, querer dizer propósito, finalidade ou desígnio, como quando, por exemplo, perguntamos «Qual o sentido de fazer sofrer um animal indefeso?». Por conseguinte, a pergunta sobre o sentido da vida pode também significar «Qual o propósito ou a finalidade da vida?». Nesta acepção, a pergunta está longe de não ter sentido e de ser incoerente. Já não se trata de dizer que a vida tem significado, no sentido que o termo tem em linguística, mas de saber qual o objectivo da vida. É mesmo com este sentido, com o sentido de «objectivo» ou «finalidade», que a expressão «sentido da existência» é geralmente usada quando se fala do problema do sentido da vida.

A história de Vonnegut contém ainda uma outra implicação. É impossível não ter a impressão de que se a finalidade da vida humana é produzir uma peça insignificante para permitir levar uma mensagem, também ela insignificante, a uma galáxia longínqua, a vida tem pouco que a faça merecer ser vivida. Isto sugere que para que a vida tenha sentido não basta que tenha um propósito ou finalidade. É também necessário que esse propósito tenha valor, que seja de alguma forma importante. No filme de João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela, o personagem principal, João de Deus, colecciona pêlos púbicos de jovens donzelas. É evidente que a sua vida tem um objectivo, mas é também evidente que não tem qualquer valor, visto que esse objectivo não tem ele próprio qualquer valor. Coleccionar pêlos púbicos pode fornecer uma finalidade à vida, mas é difícil imaginar que possa fazer com que mereça a pena vivê-la, mesmo que isso torne a pessoa que o faz imensamente feliz. A razão está em que quando nos interrogamos acerca do sentido da vida não queremos apenas saber qual o objectivo que ela pode ter. Procuramos também uma justificação para a nossa existência, algo que lhe dê valor e que a faça merecer a pena ser vivida. Perguntar, então, qual o sentido da vida implica perguntar como devemos viver para que a nossa vida mereça a pena ser vivida. Talvez a melhor forma de entender isto seja imaginarmo-nos no fim da vida, já muito idosos, às portas da morte, olhando para o passado e perguntando a nós mesmos se a nossa vida teve sentido (ou, se preferirmos, uma vez que o resultado é o mesmo, imaginarmo-nos agora a perguntar a nós mesmos como devemos viver a nossa vida para que, uma vez anciãos, possamos dizer que ela teve sentido). Chegaremos facilmente à conclusão de que há apenas duas coisas que interessam para responder a essa questão:

1) saber se a nossa vida teve um ou mais objectivos; e

2) saber se esse objectivo ou objectivos têm valor.

Se a nossa resposta a estas perguntas for em ambos os casos afirmativa, então a nossa vida teve sentido. Se, pelo contrário, nenhuma das nossas respostas ou se apenas uma foi afirmativa, então a nossa vida não teve sentido.

Alguns pensadores afirmam que para que a vida tenha sentido é não apenas necessário que tenha um objectivo com valor como que esse objectivo possa ser alcançado. Isto, no entanto, parece não ser verdade. Se fosse, a vida de alguém que se dedicasse a um objectivo inquestionavelmente meritório, mas, dado o estado actual do mundo, inalcançável, como, por exemplo, acabar com a exploração dos animais pelo homem, não teria sentido, mesmo que, ao tentar atingir esse objectivo, essa pessoa tivesse contribuído de forma significativa para que os animais fossem melhor tratados. Além disso, dado que a esmagadora maioria dos homens não consegue atingir os seus objectivos, se só aqueles que atingissem o seu objectivo pudessem ter uma vida com sentido, o número das pessoas com uma existência com sentido seria certamente muito reduzido.

Outros pensadores têm uma perspectiva inversa e afirmam que não é o objectivo que dá sentido à vida, mas o processo pelo qual se procura alcançar esse objectivo.

«Se os construtores de uma grande e florescente civilização antiga pudessem de algum modo ver agora os arqueólogos desenterrar os insignificantes vestígios do que outrora realizaram com grande esforço — ver os fragmentos de potes e vasos, umas quantas estátuas partidas, e outros sinais de uma outra época e grandeza —, poderiam na verdade perguntar a si próprios qual o propósito de tudo isso, se era naquilo que tudo se tinha transformado. No entanto, as coisas não lhes pareceram assim na altura, porque era precisamente o acto de construir, e não o que acabou por ser construído, que dava sentido à sua vida.»

Richard Taylor, “The Meaning of Life” in Klemke, E. D., The Meaning of Life, p. 174

Este ponto de vista também não parece correcto, uma vez que viola duas fortes intuições dos seres humanos. Em primeiro lugar, o comportamento das pessoas parece constantemente mostrar que acreditam que são os objectivos que dão sentido à sua vida e não os processos pelos quais os alcançam. Em segundo lugar, se fossem os processos por intermédio dos quais atingimos os objectivos das nossas vidas que lhes dão sentido, então ter uma vida com sentido consistiria simplesmente em viver a vida e, portanto, a vida de praticamente toda e qualquer pessoa teria, nesse caso, sentido.

Assim, quer a ideia de que a vida tem sentido apenas quando alcançamos os nossos objectivos quer a ideia de que aquilo que dá sentido à vida é o que fazemos para atingir os nossos objectivos parecem estar erradas. A primeira porque implica que apenas um número muito limitado de pessoas tenha uma vida com sentido; e a segunda porque implica que toda a gente tem uma vida com sentido (desde que, evidentemente, tenha objectivos e faça alguma coisa para os atingir). Não deve ser preciso ser santo para ter uma vida com sentido e não se pode ser serial killer e ter uma vida com sentido. A verdade deve estar algures no meio.

Podemos, portanto, concluir que o objectivo poder ser alcançado não é uma condição para que a vida tenha sentido. Assim, há apenas duas condições que são necessárias e suficientes para que a vida tenha sentido, a saber, que a vida tenha um ou mais propósitos, finalidades ou objectivos e que esse objectivo ou esses objectivos tenham valor.


A resposta religiosa

Chegados a este ponto, parece que afinal o problema do sentido da vida é de fácil resolução. Tudo o que precisamos fazer é determinar qual o objectivo ou os objectivos que têm valor e dedicar a nossa vida à sua realização. Ora, o problema está precisamente aqui. Embora os filósofos estejam em geral de acordo em que uma vida para ter sentido tem de ter um ou vários objectivos com valor, estão longe de concordar quanto a qual ou quais os objectivos que têm valor.

Isso resulta, pelo menos em parte, dos seus pontos de vista sobre os valores.

Por um lado, há os filósofos que julgam que os valores são subjectivos e que qualquer objectivo a que uma pessoa atribua valor tem valor para essa pessoa e, portanto, dá sentido à sua vida. Deste ponto de vista, até João de Deus, com a sua colecção de pêlos púbicos, ou um serial killer, com o seu cortejo de cadáveres, têm uma vida com sentido, desde que, bem entendido, isso constitua para eles um objectivo a que dêem valor.

Por outro lado, há os filósofos que pensam que existem valores objectivos. Estes filósofos, no entanto, estão em desacordo quanto à origem da objectividade dos valores. Uma tradição imensamente influente é a da teoria dos mandamentos divinos. De acordo com essa tradição, o único ponto de vista objectivo é o de Deus e, portanto, é Deus que determina o que tem ou não tem valor. Matar alguém sem qualquer razão é errado ou combater a fome no mundo é correcto, não porque alguém julga que isso é assim, nem sequer porque a maioria das pessoas pensa desse modo, mas porque Deus o determinou. Como só Deus é sumamente bom e omnisciente, só Deus sabe o que objectivamente tem valor. Isto é válido tanto para as nossas acções como para os nossos objectivos: é o ponto de vista absoluto de Deus que determina quais os objectivos com valor. Assim, o objectivo da nossa existência, qualquer que ele seja, tem de derivar de Deus, porque tem de ter valor e Deus é a origem de todo o valor.

Os defensores destas ideias em geral pensam também que Deus estabeleceu efectivamente qual é a finalidade para a existência humana e a comunicou aos homens por intermédio da Bíblia e de outras formas de revelação. Dado que a mensagem cristã tem sido de enorme importância nos últimos dois milénios, fornecendo conforto espiritual a muitos milhões de pessoas, temos de estudar esta resposta com detalhe e procurar determinar se constitui uma resposta efectiva ou uma resposta ilusória à questão do sentido da existência.

A ideia fundamental da resposta religiosa é a de que é Deus que dá sentido à existência. A finalidade da vida humana é a felicidade, mas, devido ao facto de a vida terrena ser limitada e incompleta, essa felicidade não pode ser plenamente alcançada nesta vida. Ela só pode ser alcançada numa vida depois desta vida, em que a alma imortal vive eternamente no reino de Deus. A felicidade é precisamente esta comunhão eterna com Deus. Em princípio, este objectivo está ao alcance de todos os homens, uma vez que Deus os fez à sua imagem e semelhança, mas só aqueles que fizerem da imitação de Jesus Cristo um objectivo da sua vida e a dedicarem à oração e à prática da virtude, poderão aspirar à vida eterna. Os outros, claro, estão condenados à infelicidade eterna no Inferno. A felicidade eterna, portanto, não é algo a que se possa aspirar sem contrapartidas. Para poder alcançá-la, o homem tem de viver neste mundo uma vida moral e religiosa plena, na qual a prática do bem e a adoração a Deus têm um papel essencial. Assim, embora o objectivo último da vida só possa ser encontrado numa vida para além desta, esse objectivo projecta-se nesta vida e dá-lhe significado e valor, pelo que o Cristão, mesmo neste mundo, pode ter uma existência com sentido.


Argumentos a favor da resposta religiosa

Que razões têm os cristãos para pensar que a vida com valor é a vida religiosa? Em primeiro lugar, a incapacidade da forma de vida alternativa, dedicada à obtenção e fruição de bem exteriores, muitos deles mundanos e imediatos, de conduzir à felicidade e dar sentido à vida. Isto não significa que, para o Cristianismo, só os santos, só aqueles que se dedicam exclusivamente à via espiritual possam ser felizes. O Cristianismo não rejeita a santidade — há mesmo várias ordens religiosas católicas que a têm como regra de vida —, mas também não faz dela a única condição necessária para ser feliz. Muitos cristãos admitem que alguns bens terrenos — saúde, riqueza, amigos, bons livros e boa música, etc. — são igualmente necessários para que o homem seja feliz e, de uma maneira geral, incluem-nos na sua concepção de vida. O que eles recusam é que a felicidade nesta vida possa consistir apenas na fruição desses tipos de bens, sem que a espiritualidade e a moralidade tenham aí qualquer papel. E isto por várias razões:

1. Porque quem vive para os bens terrenos está prisioneiro dos seus desejos, é dilacerado por muitos impulsos, e, por essa razão, não é livre nem pode ter paz.

2. Porque quem procura a felicidade nos bens externos procura-a em coisas de natureza precária, sobre as quais não tem qualquer domínio, pelo que a sua felicidade pode a qualquer momento transformar-se em infelicidade.

3. Porque os bens externos não têm valor em si mesmos, não são bens últimos; são, na melhor das hipóteses, bens instrumentais, meios para outros fins, cujo valor depende daquilo para que servem e que podem ser bem ou mal usados.

4. Porque as concepções de felicidade que se baseiam neste tipo de bens pressupõem um estatuto privilegiado para aquele que é feliz, uma vez que dependem de capacidades e de circunstâncias excepcionais, que a maior parte dos seres humanos, por múltiplas razões, não tem nem pode aceder. Se o sentido da vida estivesse nestes tipos de felicidade, então a maior parte dos seres humanos não teria qualquer possibilidade de ser feliz.

Mas talvez a razão mais importante a favor da vida religiosa é a de que só Deus e a imortalidade podem dar sentido à existência humana.

Esta ideia tem defensores tanto entre os apoiantes da resposta religiosa como entre uma parte dos seus opositores, como se tornará mais claro na próxima secção. Entre os apoiantes da resposta religiosa, William Lane Craig é talvez quem na actualidade apresenta a melhor defesa desta tese.

Ele pensa que se Deus não existir e se a alma humana não for imortal, nada, nem a nossa vida nem a totalidade do universo, têm qualquer sentido, valor ou propósito.

Em primeiro lugar, porque se Deus não existir e a alma não for imortal, nada tem sentido. Se a alma não é imortal, se as pessoas deixam de existir quando morrem, tudo o que façamos tem apenas um sentido relativo, isto é, é apenas um meio para outras coisas que, elas próprias, têm também somente um sentido relativo e, portanto, nada do que façamos tem um sentido último. E se nada tem sentido último, então nada do que façamos — todas aquelas pequenas coisas com que preenchemos o nosso dia-a-dia e as grandes coisas que podemos eventualmente fazer — tem qualquer sentido. Por conseguinte, se a alma não é imortal, a vida humana não tem qualquer sentido. Mas não basta que a alma seja imortal para que a vida humana tenha sentido. O mero facto de viver para sempre não dá sentido à existência. Se Deus não existe, a nossa vida, mesmo que seja uma vida imortal, é apenas uma vida infinita sem qualquer sentido. Portanto, é preciso também que Deus exista.

Em segundo lugar, se Deus não existir e a alma não for imortal, nada tem valor. Por um lado, porque se a alma não for imortal, o que quer que façamos não fará qualquer diferença. Tanto faz que sejamos como Estaline ou a Madre Teresa de Calcutá, o resultado é o mesmo. Se tudo acaba na sepultura, o que devemos fazer é agir exclusivamente de acordo com os nossos interesses, sem olhar a deveres ou a consequências, pois, no fim, é indiferente. Na verdade, muitas pessoas que tiveram fé e que depois a perderam ou que têm apenas uma fé superficial («Eu sou católico não praticante», etc.), agem exactamente deste modo. Além disso, se Deus não existe, não há padrões objectivos de certo e errado. Sem Deus, os valores morais ou são a expressão do gosto pessoal, e são subjectivos, ou subprodutos da evolução socio-biológica e da cultura, e são relativos. E se não existem valores, é impossível condenar mesmo os actos mais hediondos. Num universo sem Deus, o bem e o mal não existem. Existe apenas o facto da existência sem ninguém que diga o que está certo e errado.

Em terceiro lugar, se Deus não existe e a alma não é imortal, nada tem um propósito. Porque, se a vida acaba com a morte, essa vida não tem qualquer objectivo e é inútil e nem o universo nem o homem têm qualquer objectivo ou propósito. Mas mesmo que a vida humana seja imortal, sem Deus essa vida não tem qualquer propósito, porque nesse caso o universo é apenas o resultado do acaso, de um acidente cósmico, sem nenhuma razão para que tenha ocorrido. E o mesmo é verdade do homem, um mero produto da matéria, do acaso e do tempo, uma aberração da natureza num universo sem propósito, que vive uma vida ela própria sem propósito.

Em resumo, se Deus e a alma não for imortal, nada do que fizermos tem sentido, valor ou propósito e tanto o universo como a vida humana são absurdos.

Mas qual o problema de a vida e o universo serem absurdos? O problema é que se a vida e o universo são absurdos, o homem não pode ser feliz. Para que o homem seja feliz, tanto a vida como o universo têm de ter sentido, valor e propósito. Não um sentido, valor e propósito subjectivos ou relativos, porque esses, no fim de contas, equivalem à ausência de sentido, valor e propósito, mas um sentido, valor e propósito objectivos. Ora, só Deus pode garantir um sentido, valor e propósito objectivos. Daí a superioridade da resposta religiosa. Como William Craig diz:

De acordo com a visão cristã do mundo, Deus existe e a vida humana não acaba no túmulo. No corpo ressuscitado o homem pode fruir de vida eterna e da companhia de Deus. O Cristianismo Bíblico, portanto, fornece as duas condições necessárias para uma vida humana com sentido, valor e propósito: Deus e a imortalidade. Devido a isto, podemos viver de forma consistente e feliz.

William Lane Craig. “The Absurdity of Life Without God” in Klemke, E. D. The Meaning of Life, p. 53

Willaim Craig sabe que não provou que a resposta religiosa ao problema do sentido da vida é verdadeira e que tudo o que fez foi apresentar as alternativas — a resposta não religiosa e a religiosa — e mostrar por que razões a segunda é preferível à primeira. O seu argumento é, no essencial, o seguinte:

Primeira premissa: Ou Deus não existe e a vida é fútil ou Deus existe e a vida tem sentido.

Segunda premissa: Ora, se a vida tem sentido, podemos ser felizes.

Conclusão: Portanto, é racional pensar que Deus existe.

É fácil perceber que este argumento não prova a conclusão, uma vez que não é possível deduzi-la das premissas. Este argumento tem estranhas semelhanças com o argumento moral de Kant. No argumento moral, Kant pergunta o que é necessário que um homem acredite para que aja moralmente. A sua resposta é os postulados da razão prática: livre-arbítrio, imortalidade da alma e Deus. Aqui tudo se passa como se Craig perguntasse «O que é necessário para que o homem seja feliz?» e respondesse que é necessário que a vida tenha sentido, isto é, que a alma seja imortal e que Deus exista. Ora, da mesma maneira que o argumento moral de Kant — como o próprio Kant sabia — não prova que o homem tenha livre-arbítrio, nem que a alma seja imortal ou que Deus exista, também o argumento de William Craig não prova que Deus exista e a alma seja imortal, e Lane Craig sabe-o. Contudo, ele pensa que dadas as circunstâncias, isto é, dado que essa é a única forma de o homem ser feliz, isso é razão suficiente para postular que a alma é imortal e que Deus existe. Mas será que é?


Críticas e alternativas à resposta religiosa

Apesar de imensamente popular, a crença em que é a vida religiosa que dá sentido à vida está sujeita a muitas objecções.

A primeira, embora nem por sombras a mais importante, é que ela depende da imortalidade da alma e da existência de Deus. Alguém que não acredite numa ou noutra ou em ambas, não terá qualquer razão para aceitar a resposta religiosa e pelo menos em relação a Deus não é difícil ter boas razões para duvidar da sua existência.

Uma segunda dificuldade está em que essa hipótese significa que os muitos milhões de pessoas, existentes actualmente ou no passado, que não acreditam ou não acreditaram em Deus, ou que acreditam ou acreditaram num deus diferente ou em vários deuses, numa palavra, todos aqueles milhões de pessoas que não partilham ou não partilharam a tradição religiosa judaico-cristã e muçulmana estão completamente impedidos de ter uma vida com sentido. Esta ideia, além de imoral, é difícil de aceitar. Imagine-se alguém que, embora ateu, por amor sincero aos homens dedica a sua vida a auxiliar as vítimas da lepra ou da sida. Como, por ser ateu não acredita na imortalidade da alma e em Deus, a sua vida está inexoravelmente condenada a não ter sentido. Ao mesmo tempo, a vida da Madre Teresa de Calcutá, que se dedicou ao auxílio dos pobres e doentes, não por amor deles, mas como forma de propagar a fé cristã, como acredita em Deus e na imortalidade, tem uma vida com sentido. Admitindo que Deus existe e tenha criado tudo o que existe, não parece plausível que sendo sumamente bom, como os cristãos acreditam que Deus é, possa ter feito as coisas deste modo.

Outro problema ainda é que se, como os cristãos pretendem, Deus criou-nos e deu sentido às nossas vidas, então as nossas vidas têm sentido para ele e não para nós. Se a razão de ser das nossas vidas for, como resulta da Bíblia, cumprir a vontade divina, ter uma vida com sentido, uma vez que esse é determinado do exterior, é pior do que não ter uma vida com qualquer sentido predeterminado. O que será melhor, ser um escravo com um papel no universo ou uma pessoa livre para criar um papel para si própria? E, no entanto, se o sentido da nossa vida for determinado por Deus, se a única forma de alcançar a felicidade for obedecer-lhe, o papel que nos está reservado é o de escravos. A nossa situação não é diferente do prisioneiro que quer sobreviver a todo o custo e sabe que a única forma de o conseguir é fazer exactamente o que o seu captor lhe manda.

Os argumentos a favor da resposta religiosa também evidenciam outras dificuldades dessa resposta. Embora seja mais evidente no argumento de William Craig do que no primeiro, os dois opõem a resposta religiosa a alternativas que por razões diferentes são consideradas insatisfatórias. O primeiro argumento opõe a vida religiosa a uma vida dedicada exclusivamente aos bens exteriores, ao passo que no segundo argumento, a alternativa é entre a não existência de Deus e uma vida fútil, por um lado, e a existência de Deus e de uma vida com sentido, por outro.

O problema destes argumentos é que cometem ambos a falácia do falso dilema. No primeiro argumento, a vida religiosa é comparada com um outro tipo de vida do qual está excluída toda e qualquer atitude ou actividade moral. A possibilidade que nos é dada é a de escolher entre uma vida religiosa e moral e uma vida dedicada à fruição dos bens exteriores concebida de modo que a moral não tenha nela qualquer papel. Contudo, se pensarmos um bocadinho, percebemos facilmente que há outras alternativas. Uma alternativa é, por exemplo, uma vida em que a procura e a fruição de bens exteriores, materiais e mundanos ou não, tenha um papel importante, mas que não exclua a moral e até uma dose importante de espiritualidade. Não há nenhum motivo para pensar que uma vida deste tipo, em que os diferentes tipos de bens (materiais e espirituais) tenham um papel equilibrado, não possa ser uma vida com sentido. É uma vida mais ou menos assim que a esmagadora maioria dos seres humanos parecem procurar viver. Se fosse impossível ser feliz desse modo, esse tipo de vida não seria certamente tão popular.

O argumento de William Craig enfrenta problemas semelhantes. Por que razão a vida não tem sentido se não existir Deus nem imortalidade? Por que razão só temos duas hipóteses possíveis: uma vida com Deus e imortalidade e, portanto, com sentido e uma vida sem nenhuma dessas coisas e inevitavelmente absurda? Lane Craig, ao pôr as coisas desta forma, não está, no entanto, sozinho. Vários outros pensadores associaram o sentido da vida a Deus, à imortalidade ou a ambos, embora tenham disso tirado conclusões diferentes das dele. É o caso, por exemplo, de Tolstoi, Nietzsche, e os existencialistas franceses, Albert Camus e Jean-Paul Sartre.

Mas será que se Deus não existir, a vida é necessariamente absurda? Há um sentido em que isto é trivialmente verdade. Se Deus não existir, é impossível que a vida tenha o sentido que se crê que Deus lhe dá. Concluir, no entanto, que a vida é absurda, que não tem qualquer sentido, é ir longe de mais. Quem pensa assim, julga que a vida só pode ter um único sentido — ou, pelo menos, um único realmente com valor — e que se este, por hipótese não existir, então a vida não tem qualquer sentido. Lane Craig pensa que a vida tem de ter este sentido único e último e funda aí a sua convicção na existência de Deus.

Há, no entanto, outras hipóteses. Uma é a de que Deus exista e a vida não tenha qualquer sentido porque, ao contrário do que os teístas pensam, Deus não fez o mundo com qualquer propósito. Esta hipótese é consistente com uma concepção deísta de Deus, mas incompatível com a concepção teísta dominante nas grandes religiões ocidentais e, por isso, histórica e filosoficamente sem importância. Uma quarta hipótese é a de Deus não existir e, apesar disso, a vida ter sentido. Lane Craig recusa vigorosamente esta hipótese porque, como vimos, julga que não permite a existência de valores morais objectivos. Muitos filósofos, contudo, não vêem com bons olhos esta associação entre Deus e valores morais objectivos.

A crença em que os valores morais têm origem em Deus constitui, como já vimos antes, a teoria dos mandamentos divinos. Esta teoria é objecto de uma crítica importante, que tem as suas origens no diálogo Êutifron de Platão, e a que é costume chamar dilema de Êutifron. Nesse diálogo, Sócrates, a personagem principal, encontra Êutifron a caminho do tribunal e discute com ele acerca da piedade. A palavra piedade não tem neste contexto o significado mais comum de compaixão ou misericórdia, mas de respeito e devoção para com os deuses. Um homem piedoso é, assim, um homem que respeita os deuses e pratica os seus deveres religiosos. A dado passo no diálogo, Sócrates pergunta a Êutifron: «Então, a piedade é amada pelos deuses, porque é piedade, ou é piedade, porque é amada pelos deuses?» (Platão, Êutifron, p. 44.) Esta pergunta costuma ser ligeiramente alterada para a melhor adaptar ao problema da origem dos valores morais, pelo que o dilema de Êutifron é basicamente o seguinte:

Deus manda fazer uma acção porque ela é correcta ou uma acção é correcta porque Deus a manda fazer?

A pergunta estabelece duas opções que esgotam todas as possibilidades: a primeira é a de que Deus manda fazer uma acção porque ela é correcta e a segunda é a de que uma acção é correcta porque Deus a manda fazer. Em rigor, apenas a segunda opção corresponde à teoria dos mandamentos divinos, mas, por razões diferentes, nenhuma destas possibilidades é favorável à ideia de que a ética deriva de Deus. No caso da primeira opção, porque se Deus manda fazer uma acção porque ela é correcta, isso significa que o facto de uma acção ser ou não correcta é independente de Deus, pelo que ele está sujeito à mesma obrigação que qualquer um de nós a agir de certa forma. No caso da segunda opção, porque se uma acção é correcta porque Deus a manda fazer, segue-se que seja o que for que Deus mande fazer é correcto e a ética completamente arbitrária. Se Deus, por exemplo, tivesse resolvido fazer um mundo no qual as acções correctas fossem exactamente as opostas daquelas que fazem parte dos Dez Mandamentos, essas acções, pelo simples facto de Deus as ter mandado fazer, seriam correctas.

Parece, portanto, que qualquer tentativa de argumentar dos valores morais para Deus, isto é, de defender que devido a haver valores morais objectivos Deus existe, está votada ao fracasso. E se não se pode fazer isto, segue-se daí, como William Craig afirma, que não existem valores morais objectivos?

O dilema de Êutifron, ou melhor, a primeira opção do dilema, sugere uma resposta negativa a esta questão e muitos filósofos contemporâneos tendem a pensar do mesmo modo e a ver pelo menos em parte aí a resposta para o problema do sentido da vida. O utilitarismo é um bom exemplo de uma teoria não religiosa e objectiva da ética. O critério utilitarista de felicidade constitui um critério moral objectivo e independente da religião. E embora Kant, como vimos no capítulo anterior, faça em última instância a sua ética depender de postulados religiosos (o livre-arbítrio, a imortalidade da alma e Deus), parece ser possível uma teoria ética deontologista que aceite o essencial da teoria kantiana — e, por conseguinte, funde a ética na razão —, mas recuse os seus pressupostos religiosos.

Numa palavra, aqueles que recusam o subjectivismo e todas as suas implicações, não estão irremediavelmente condenados a aceitar a teoria dos mandamentos divinos para poderem perfilhar um ponto de vista objectivista dos valores. Dissemos atrás que nem todos os filósofos que defendem a existência de valores morais objectivos estão de acordo acerca da sua origem. Um bom número deles pensa que Deus é a origem desses valores. Mas, aceitando a sugestão do dilema de Êutifron, outros filósofos pensam que existem critérios estritamente racionais que permitem fundar uma ética objectivista. Se estes filósofos estiverem certos, Deus não é necessário para que haja valores morais objectivos e uma das principais razões de Lane Craig, e de outros com ele, a favor da resposta religiosa ao problema do sentido da vida perde força.

Muitos filósofos que recusam que os valores derivem de Deus recusam também que se a vida acabar com a morte do corpo não tenha qualquer propósito e, por consequência, qualquer sentido. Alguns chamam a atenção para a forma vaga como a vida eterna é com frequência descrita pelos defensores da resposta religiosa; outros para o facto de que a mera eternidade não pode constituir em si mesma um propósito (o que também é reconhecido por alguns crentes), e outros para que a eternidade é mesmo um obstáculo a uma vida com sentido. De um modo geral, estes filósofos optam por uma resposta humanista [4]e naturalista [5] ao problema do sentido da vida e pensam, em consequência, que é esta vida que tem de ter sentido e, portanto, que é nesta vida que é preciso encontrar um ou mais propósitos com valor. Alguns, como Peter Singer, um filósofo utilitarista contemporâneo, julgam que a resposta ao problema está numa vida ética, dedicada a projectos éticos com valor, quer se trate de causas humanitárias, ambientais ou animais. Outros, sugerem que o sentido da vida pode estar igualmente em outros projectos com valor. Não lhes parece fazer sentido afirmar que as vidas de Mozart, Einstein ou Picasso não tiveram valor. Assim, para estes filósofos, as vidas dedicadas ao conhecimento e à arte também são vidas com valor. Mas, de um modo geral, todos recusam, por um lado, a resposta religiosa e, por outro, a alternativa, que a vida é absurda, de filósofos como Camus, Sartre e, mais recentemente, Thomas Nagel, e afirmam vigorosamente que a nossa vida pode ter sentido, desde que queiramos.


Bibliografia


Baggini, Julian. What's It All About?: Philosophy and the Meaning of Life, Londres: Granta Books, 2005.

Camus, Albert. O Mito de Sísifo, Lisboa: Livros do Brasil, 2005.

Cottingham, John. On the Meaning of Life, Londres: Routledge, 2002.

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[1] Esta expressão é ambígua e é usual compreender nela várias questões: Porque existe o universo? Porque existe o ser humano? Há um algum propósito para o universo e o ser humano? Como podemos viver uma vida com um objectivo com valor?

[2] Doutrinas filosóficas associadas aos filósofos do Círculo de Viena. Estes filósofos defenderam que há apenas dois tipos de proposições, as analíticas e aquelas cuja verdade ou falsidade pode ser verificada empiricamente. Todas as outras proposições não têm sentido. Isso levou-os a rejeitar toda a metafísica tradicional.

[3] Escola filosófica que dominou a filosofia anglo-saxónica em meados do século XX e que dava especial atenção à análise e compreensão da linguagem comum.

[4] Humanismo: qualquer filosofia que dê relevância à capacidade dos seres humanos para determinar os valores e o seu destino independentemente de quaisquer concepções religiosas.

[5] Naturalismo: ponto de vista filosófico segundo o qual tudo o que existe é de natureza corpórea e material e que rejeita, portanto, a crença na existência das entidades sobrenaturais da metafísica e da religião tradicionais.

 

Álvaro Nunes, 2008

 

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